sábado, 6 de setembro de 2014

RELATOS - 1

Os pés preguiçosos recusavam-se a tocar o chão. Talvez pelo sonho bom ao qual ensaiara entrar. Talvez pelo cansaço dos dias passados em campanha. Talvez por preverem o que viria por trás do toque insistente na porta. Talvez... Levantou-se, passou as mãos nos cabelos desalinhados e, bocejando, caminhou pelo longo corredor iluminado pelas arandelas foscas que haviam escolhido com esmero para a decoração da nova casa. Carregava um medo bobo e infantil de estar sozinha no escuro e essas luzes nunca ficavam apagadas.
Chegou à porta com a velocidade que o sono permitia e abrindo-a, um rosto pálido, magro e cerimonioso inclinando a cabeça em cumprimento, deu-lhe a notícia fatídica. Entre o curto relato e o sinto muito, nasceu uma eternidade infinita na qual um chão partido ao meio sugou-a. Pensamentos diversos, pontudos, confusos, passaram por sua cabeça naquele breve instante. Há pouco, falaram-se, renovando juras e promessas. Consertaria o encanamento da pia, iriam juntos ao Municipal e nem dormiria no segundo ato. Debateriam a última leitura de Hesse. Passariam uma borracha no passado e diriam mais vezes 'eu te amo' olho no olho. Tudo bem que nunca acreditara de fato no cumprimento de uma delas, mas aquela, a de estarem juntos para sempre, levava a sério e agora...Nem presente. Imóvel aos pés da escada, nem se deu conta da figura esquálida se distanciando, levando consigo a sombra e a sobra do seu sorriso.
Saída do transe, enquanto fechava a porta, limpou o rosto banhado pelas lágrimas causada pelo noticiado. A dor da frase não dita era o que mais lhe consumia. Subiu as escadas rememorando tudo que viveram e foi tanto e tão bonito que o pranto recolheu-se a um canto dando lugar à coragem de encarar os fatos, o momento. Estava só novamente e a madrugada insistia. Apagou as luzes das arandelas e, no escuro, percorreu o corredor, que parecia ainda mais longo, de volta ao seu quarto. Jogou o corpo na cama desarrumada e com cuidado, aconchegou os pés, ainda mais cansados, no colchão. De olhos abertos, fixos no teto, desenhava uma imagem no ar mas o vento por teimosia, num só sopro, a desfazia. Queria dormir, queria sonhar, queria fugir da dura e triste realidade mas nada disso acontecia. Fechou os olhos, abraçada às lembranças. Já sentia os efeitos da saudade que, como uma anestesia, trouxe-lhe um cochilo breve...
Não demorou muito para que o sol a acordasse. Mas, o que queria no momento era que seus pés, só por alento, não precisassem tocar novamente o chão...

- Lena Ferreira - in Relatos 1 - set.14
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