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NO ESPELHO

Acho graça quando a imagem se alinha e aninha as vestes de um vento suposto à crueza do rosto, dos fatos e dos ritos benditos e, despindo suas comiserações, costura uns remendos, fiapos do tempo nas lembranças inóspitas e arrefecidas aliando o roto reverso ao avesso da pena É uma graça pequena que não ri nem chora pelo ofício flácido de ninar as plangências e as emergências dos reflexos que refreiam   debruçados no compasso do sossego volátil à beira do berço largo  onde a mente divaga na vaga observância de incautas urgências que no vento depositam as marés de desgosto os azares dos vazios, as tardes de sorrisos as noites sem juízo, os dias de procura, os voos em clausura, mesuras e pirraças Acho graça quando a imagem se alinha e aninha as vestes que, despindo-me, não vejo no espelho, não rio nem choro; solfejo NO ESPELHO - Lena Ferreira - 

ANÔNIMAS

Poeiras pré-concebidas estagnam o vento e acorrentando-o através dos seculares dias alimentam o pavio de guerras frias e mudas estatísticas apreçam o custeio e os valores e enquanto rios secam e mares transbordam as terras sem fronteiras definidas tremem mais pelos tementes do que pelos temidos o caos instaurado segue dilatando olhares santos, surdos e cegos, egos estrelam noites em nuvens líquidas, lânguidas e passageiras poeiras pré-concebidas estagnam o tempo sereno e profuso, o céu nos observa e cala a rota dos segundos apressa a transitoriedade a reta dos minutos quase derrapa nas curvas as horas oram por sorrisos inteiros que valham a palha sob a chuva que o vento não move hoje ou amanhã se transforma em fogueira o fogo, o mesmo fogo que consome a carne aquece as doidas almas nas vagas de frio pés ainda tropeçam nas sombras alheias vísceras expõem-se em translúcidos véus o caos instaurado segue dilatando olhares porém, mãos anônimas dispostas em auxílio dão...

PREZO

Prezo a palavra: a feia, a pobre, a bonita a áspera, a úmida, a delicada a comportada, a esquisita a que tudo diz, mesmo calada a que falada, não diz nada a que derruba a que levanta a que planta a que aduba a que encanta a que abala a que embala a que cala a que cresce a que enternece a que estremece a que me é restrita a que não fala, grita a que intimida, silencia a que intimismo propicia a que lamenta a que fermenta a que estranha a que entranha a que barganha a que enruga a que encharca a que enxuga a que estica a que edifica a que chora a que cora a que ora a que, ontem, amanhã ou agora se articula e circula sem bula nem via e se vira e delira e corteja e se atira e me beija e me beija enquanto  rezo  para que, dia após dia, ao menos uma delas  seja o que não desprezo - poesia - PREZO - Lena Ferreira - abr.15