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CONTO I

Recebeu o carregamento de tijolos com a mesma satisfação de criança que recebe um brinquedo novo e, sozinha, pôs-se escada acima os levando ao terraço.  Era sábado, dia de praia e shopping e ela ali, num sobe-e-desce exaustivo. Mas, nada tirava de Marinez o sorriso dos determinados, dos que acreditam que só o esforço aliado a certos sacrifícios fazem com que se alcance um objetivo firmemente traçado, embora simples. Um cômodo pequeno que, antes mesmo de nascer, ganhara o nome de Guardador de Ideias. Ali, acomodaria livros, projetos, tintas, telas, material reciclável, enfim, tudo o que inspirasse transpiração. E os tijolos subiam. Tarefa de um dia inteiro, finalizada com o corpo robusto lavado de suor, cansaço e orgulho. Daquele orgulho bobo, sabe? Que não se compara à pretensão de se pensar melhor do que aquelas que dependem de homens para esse tipo de serviço. Mas aquele orgulho de ter vencido uma etapa da única competição proposta e possível; superar-se. Apesar da força das c...

SE

Hora de arrumar a velha estante. Abrir espaço para os novos sem descartar os antigos. Nessa tarefa complicada (porque o móvel é bem pequeno e os pobrezinhos vivem em saia justa), ao reagrupar os de Drummond, um de Rubem veio ao chão  com as suas reticências exibidas já capa provocando reflexões. "Se eu pudesse viver a minha vida novamente..." Conseguiu o seu intento. Fora um presente generoso da amiga Stella Maris na Bienal de 2009. Lembrei-me instantaneamente do momento. E do sentido. Foi bom. Deixei de lado a arrumação e debrucei-me na releitura. Releituras são bem interessantes. Na época, a semente do que dizia já na introdução incomodou-me um tanto, mas não cheguei a concluir se concordava ou discordava com o que o Mestre dizia:  "Se eu pudesse viver a minha vida novamente, eu quereria vivê-la do  mesmo jeito como vivi, com seus enganos, fracassos e equívocos. Doidices? (...)" Mas deleitei-me com o restante da leitura, repletas de traços de delicadeza e no...

NO CENTRO COMERCIAL

Venho planejando, sem sucesso, um dia poder antecipar as compras de natal em, pelo menos, três meses. Sim, meu sonho de consumo! É que toda essa correria para os festejos de fim de ano sempre me afligiram. Lojas repletas, alvoroço, empurra-empurra, gritarias, dúvidas sobre o que comprar para cada um e o cuidado de não me esquecer de ninguém.  Passava sempre a  responsabilidade para terceiros, quartos, quintos. Qualquer um, desde que não fosse eu a  enfrentar a barbárie da comercialização pontual. Este ano, apesar do mesmo tumulto, das mesmas situações, resolvi encarar todo o processo com boa vontade e disposição. Saí de casa cedo e sozinha, sem hora pra voltar e pude observar  em cada rosto a mesma ansiedade que carregava comigo. E como me fez bem saber que não estava sozinha em meio aos conflitos sobre o que comprar, se vou acertar na escolha, se o preço é justo, se, se, se...  Mas sempre se tira algo de proveitoso em qualquer situação, basta treinar os ol...

SINAIS

Era tarde. Horas altas. Após considerar as tantas faltas, abriu a porta gradeada que dava para a varanda e com passos decididos, cruzou o curto espaço que a separava do portão de ferro, preso ao muro já sem reboco, prestes a cair. Firme, empurrou a tramela e alcançou a rua comprida e escura. Consigo, levava somente a roupa do corpo e uma breve sensação de liberdade que há muito não experimentava.  Deixou a chave pendurada na porta, por dentro. A mala, desfeita, jogada aos pés da cama e, encostada à mesa do canto da sala, uma história incompleta a qual decidira não escrever mais. Respirou fundo e seguiu em frente sem olhar para trás. A cada passo dado, rememorava os dias, os meses e os anos entre planos desperdiçados e desenganos com os quais, consciente, permitia, pouco a pouco, se anular.  Uma única lágrima ensaiou alisar o seu rosto magro por todo desgosto passado. Mas, passou e porque sobrevivera até ali, engoliu. Não seria a vez primeira. Mas, a última, jurara. ...