quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

SE

Hora de arrumar a velha estante. Abrir espaço para os novos sem descartar os antigos. Nessa tarefa complicada (porque o móvel é bem pequeno e os pobrezinhos vivem em saia justa), ao reagrupar os de Drummond, um de Rubem veio ao chão  com as suas reticências exibidas já capa provocando reflexões. "Se eu pudesse viver a minha vida novamente..."
Conseguiu o seu intento. Fora um presente generoso da amiga Stella Maris na Bienal de 2009. Lembrei-me instantaneamente do momento. E do sentido. Foi bom. Deixei de lado a arrumação e debrucei-me na releitura.
Releituras são bem interessantes. Na época, a semente do que dizia já na introdução incomodou-me um tanto, mas não cheguei a concluir se concordava ou discordava com o que o Mestre dizia:
 "Se eu pudesse viver a minha vida novamente, eu quereria vivê-la do  mesmo jeito como vivi, com seus enganos, fracassos e equívocos. Doidices? (...)"
Mas deleitei-me com o restante da leitura, repletas de traços de delicadeza e nostalgia, emprestando-me às vezes colo, às vezes mãos, às vezes asas.
De lá pra cá, um bom tempo passou. Eu passei por tantas coisas e tantas coisas passaram por mim. É certo que estou onde estou por conta das escolhas que fiz e estou feliz com alguns resultados. Outros, não. Certas coisas, faria de maneira diferente, sim. Não que me arrependa do que até aqui foi feito, mas se houve aprendizado em tudo vivido até aqui e se pudesse levá-lo para essa ''nova vida'', por que não experimentar a prática do aprendido? Por que não fazer de outro jeito? Errar novos erros, por que não? Ajustar outros planos, outros sonhos, outros medos. Faltas, excessos, exceções...
Se pudesse ler agora o que escrevo, contradizendo o seu pensamento, na certa repetiria aquela mesma palavra, agora em tom exclamativo: doidice!
Pode ser... Pode ser também que daqui a algum tempo, em outra releitura, eu chegue a uma outra conclusão. É o efeito do tempo em nós. Mas, hoje, com todo o meu respeito, Mestre, penso que talvez ''não mexer em time que está ganhando', ''não trocar o certo pelo duvidoso'', ''o medo do desconhecido'', sejam os argumentos que nos travem ou mesmo que nos levem a  dar um passo pra trás. Talvez, ultrapassando esses limites, pudéssemos aprender e apreender da vida um pouco mais...


SE... - Lena Ferreira​ - fev.2015






* Se eu pudesse viver a minha vida novamente... - Rubem Alves -  2009, SP, Verus Editora
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