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PELA PORTA DOS FUNDOS

Era cedo e, no espreguiçar rotineiro antes de sair da cama, percebi entrar pela porta dos fundos um silêncio terno que se sentou ao meu lado. Não havia vento nem brisa, apesar da janela aberta. As cortinas iam imóveis e os móveis, parados. Não ouvia o farfalhar dos pássaros como costumeira recepção matinal, apesar de vê-los empoleirados nos galhos. Não havia um sinal de ruído em volta. Nenhum passo nos cômodos, nenhum riso de estio. Tudo era como um delicado vazio. Nada se movia a não ser o pensamento que girava diante dessa situação intrigante. Somente eu, o silêncio e um barulho incômodo vindo de dentro que, há tempos, ensaiava uma conversa. Sem saída, rendi-me aos seus apelos e, assistida pelo silêncio, pus-me a ouvi-lo. Falou-me das insatisfações e dos gritos abafados que suportou calado por conveniência. Falou-me das desistências, de suas vontades e de tantas verdades que me negava a ouvir. Falou-me das somas, dos sumos sumiços e dos compromissos que sempre adiava. Falou-...