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por sorte

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*** a noite deu um passo firme além da tarde com as mãos pesadas de promessas vespertinas em sua órbita, já transitam muitos rastros quase escondidos por estrelas repentinas só mais um passo, cuidadoso, sem alarde e o manto negro, como uma leve cortina, recobre o céu e nos descobre ainda frágeis nessa jornada entre o chão, o céu e os astros um passo a mais e a madrugada traz o sono entregue o corpo, a alma em suposto abandono talvez percorra os rastros, passos desse dia talvez vigie o corpo intacto em esperas talvez reclame as promessas de outras eras talvez, com sorte, acorde em nós, a poesia - Lena Ferreira - foto: Maria Célia R. Domingos
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e, nos instantes que já não preciso, colhi manhãs um tanto prematuras para enfrentar as partes mais escuras das noites que ergueram um paraíso com um sono pouco mais que improviso o riso quase era caricatura no peito, fundo tal qual sepultura, dormiam a fala, a razão, o juízo - por conta do enterro de alguns sonhos despejei, pelos olhos, um infinito desesperando a vaga do contrito - mas neste instante, onde me disponho bem diferente do que fora escrito, futuro a vida num tom mais bonito - Lena Ferreira -

as vezes

a ti que sangra as vezes que me firo e que me escuta sem que eu nada diga no pó da ausência que me desabriga deixo a presença enquanto me retiro do verso posto as vezes que deliro - e quase sempre a mente assim me obriga - trazendo à tona a sensação antiga da dissonância enquanto me refiro à toda espera de promessa isenta e à jura idosa sobre o que apascenta as folhas que despencam sem contrato a ti que sangra o meu deserto longo quisera dar o oásis de um ditongo... ...não fosse a aridez deste hiato   - Lena Ferreira -

SACRO OFÍCIO

Tão calmo esse azul que observa o entorno e tranquilo traz pra dentro aquilo que beneficia o centro o esquerdo canto, a alma e as fibras Tão calmo que o corpo inteiro vibra em ondas de energia limpa e pura - doadas com cuidado e com ternura, aumenta ainda mais sua reserva - Tão calmo esse azul - fácil parece manter a cor do céu quando ele desce e descolore o quadro a meio palmo Mas, fácil, só parece - sacro ofício,  penso - requer silêncio e exercício e por pensá-lo, calo e me acalmo SACRO OFÍCIO - Lena Ferreira - 

SOBRE A POÇA

Sobre a poça pela noite derramada um sol novo já com ares de inverno trouxe nos dedos um madrigal  tão terno pra tocar em cada gota esparramada Cada toque, o vapor que ascendia modificava as gotas da poça cheia solfejando a novidade que se enleia - feita em nuvens, a poça pro céu subia... ...lá chegando, o sol com um abraço forte condensou dores, tristezas; fez um corte no ventre de cada nuvem que se via - Se pecado for, perdoe: ao ver a morte dessa poça em cada nuvem que paria percebi que, em volta, a vida renascia SOBRE A POÇA - Lena Ferreira - jun.15