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Mostrando postagens com o rótulo prosa poética

menos a saudade

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A noite, com passo apressado, fazia um esforço tremendo para acompanhar os céleres pés do meu compromisso. Luzes piscavam, como fossem sinais de alerta apontando-me a seta - imprudente - e por um segundo senti-me culpada pelo que nem pequei. Peço perdão, mesmo assim. As ruas com seus movimentos, lembravam-me o que é existir lá fora. Há tempos enclausurada em pensamentos, pouco lembrava do que  era tudo aquilo. Em meio ao alvoroço noturno, me dei conta de que o percurso era o mesmo. O mesmo que, por tantas vezes, fizemos. Mãos dadas, sorrindo.  Ah, parecia até que o vento me espionava - e me espiona tempo todo, pressinto... - Porque, naquele exato momento, ele me abraçou como se adivinhando a lágrima que ensaiava cair. Ela veio, porque sim, inevitável, mas ele logo a levou. E deixou-me essa sensação doce. E calma, e serena. Tranquilizando-me quanto à escolha feita de voltar à vida, à luz e à lida. Do que já não é mais um sonho.  Desde então, sigo em frente, ...

outra vez

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Remexia sua bolsa como se procurasse alguma coisa muito importante. Suas mãos suavam pressa, incômodo e impaciência. Por fim, resolveu virá-la de ponta cabeça. De lá, como vômito, saiu um sem-fim de inutilidades. Pontas de cigarro, contas por pagar, algumas ausências que por protelar a procura, prescreveram reencontro. Uma fruta em estado de decomposição, um sim, dois talvez e três nãos. E o caos generalizado esparramou-se no chão. Fitou o amontoado um tanto indisposta . A náu sea instalou-se no seu pensamento. Mais uma vez. Vontade de virar as costas para tudo aquilo. Mas. Não podia. Não devia. Era hora de encarar os fatos. E as fotos. Que desbotadas pelo tempo esquecido, faziam alarido no espaço apertado. Do peito.  Não deveria ter deixado tanto tempo assim. Mas.  Assim foi. Fechou os olhos. Respirou fundo. Selecionou os trastes imprestáveis e deles se desfez. Mais uma. E, outra vez, esvaziou sua bolsa. E, com o espaço conquistado, alma e corpos já suados, aos pouc...

quem disse?

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Há tempos não visitava o sarau do Leme à beira-mar. Ah, o mar. Não bastasse a poesia, o mar. Dois amores que carrego com zelo. O mesmo que uso agora, para que não se quebre o encanto de ter presenciado a função mais sublime da poesia. A social. Veja, o único protocolo que sigo a risca é o do respeito. Por tudo. E por todos. Dito isto, repenso as sensações impressas e expressas no retorno ao Quiosque Estrela Azul ontem, no evento   Pelada Poética No Leme Com Eduardo Tornaghi . Onde encontrei renovados amigos. Foram tantas. Emoções, impressões e expressões. Na minha chegada, rezavam, os poetas, suas poesias. E, por respeito, sentei-me silente para tragar uns goles. De poesia. Um ambulante passava pelas mesas oferecendo amendoim torrado. Num papel de pão, como amostra, para que provado e aprovado, pudesse lhe render uns trocados. Fim do dia, quase. Poucas vendas. E a poesia fluía. Passados alguns instantes e ela, a poesia, calou-se diante de um enorme desrespeito. Ao ir...
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Lá fora, o mundo tá um caos, é certo. Mas, aqui dentro não é muito diferente. A gente ameaça explodir mil vezes. E, quando explode, perde a cabeça. Ou seria o contrário? Sei lá... E não é raro. Aí, meu caro, o que foi já era. Espera a calma voltar noutro itinerário. Não há mais como voltar atrás. Nada há, aliás. O que passou, já não passa mais. E, se insistir, o presente amarrota a rota, o rumo, o lema e a lima desafia, perde o corte e chama a morte para a vida. Em vida. Lá fora, o mundo tá um caos, é certo. E o que eu disser não vai mudar o mundo. A não ser que o que eu diga, eu faça. Que não passe de mais uma ameaça. A não ser que o que eu diga, exploda o motivo em ação. Enquanto não, sim, me concentro nessa viagem, não menos caótica. Olho no ego, como diz-me a ótica. Caos por caos, ainda prefiro viajar pra dentro. - Lena Ferreira -

PRESENTE

Então, é quase natal. Não só por isso, mas também por isso, agradeço. E agradeço por tudo aquilo que já passou. Pelo que voltou sem ao menos ter ido. Por tudo que se foi sem volta. Pelas reviravoltas. E pelo que está. O que virá, é novo e, é claro, desconheço. Não sou vidente. Mesmo assim, agradeço antecipadamente porque acredito que tudo o que nos acontece tem lá os seus motivos. No mínimo, no mínimo, é sinal de que ainda estamos vivos, certo? Então, de peito aberto, agradeço pelas presenças e ausências. Das palavras, dos silêncios, dos ouvidos, dos gestos, das poesias e dos ventos. Agradeço pelos adiamentos, transferências e pelas antecipações. Pelas esperas produtivas. Pelas dúvidas certas. Pelas críticas construtivas. Pelos laços, os nós, o nós, as pétalas e os espinhos. Pelos caminhos em sorte ou revés. Agradeço aos pés que me fizeram chegar até aqui e me farão, espero, seguir num caminhar além. Agradeço ao peso da espada e a leveza da cruz. Agradeço especialmente pela consci...

VIVA

E aí você acorda, mas acordar é pouco. Dá uma olhadela pela janela e confere o tempo. Um sol tímido convida para beber o dia. Embora com preguiça, você aceita. Levanta da cama. Passa as mãos nos cabelos, toma meio gole de coragem e respira. Seus pés descalços levam o seu corpo, e o sono, até a beira da praia. Lá, você ensaia um passo a mais além das águas frias. Mas, o vento sopra e o sol resfria. Então, você recua temendo pela ousadia. Mas, repensa a precisão. Respira. Toma então um gole inteiro de coragem. Deita os pés nas ondas arredias. Frias, arrepiam até os pelos do pensamento, é claro. Mas, despertam o que ia dormente. Sente? E acordam os olhos do daqui pra frente. Vê? E abrem os ouvidos do ‘não quero mais’. Ouve? Então... Mergulha o sono e o seu corpo inteiro. Aquele mesmo, mas o mesmo outro. Aquele além daqueles olhos doutos. Aquele a quem você ‘deve' o amor primeiro. Vai, mergulha. E leva junto a sua alma. Aquela a quem você mantém cativa. Vai, 'me orgulha'... Vi...

SIM, EU SEI

Sim, eu sei que a vida corre a galopes. E sei também que, às vezes, nos dá duros golpes. E por saber dessa dureza é que me encontro diante do mar que sempre, sempre está pronto a me receber, a qualquer hora ou sentimento. A me perceber, sem o peso da censura ou julgamento. A me envolver, seja na tristeza ou na alegria. E a me devolver, ao sabor da maresia, as notas da canção que tão bem me faz à alma. As mesmas que depois carrego bem no meio da palma da mão que tenta segurar a barra da saia onde uma onda ensaia aconchegar espuma e sais. Permito. Justa é a troca, é pelos ais das manhãs estendidas numa elevada quentura. Pelas tardes minguadas na espera da brandura. Pelas noites cumpridas em lua quando, em teima, insisto. Sim, eu sei que a vida margeia o imprevisto. Entre perdas e ganhos, sins e nãos, riscos e danos. Desobediente às regras e aos arquitetados planos, é a vida e é assim: corre a galopes e o tempo tempo, evapora, mas diante do mar, corpo, mente e alma se revigoram. ...

PARA ARIADNE

Num labirinto estreito, letras seguem decididas na busca por uma palavra de estreia. Desafiando mitos, dialoga com os fantasmas nas lacunas pontilhadas rimando os ramos de rumores ralos com os rumos rasos das alucinações lunares. Enquanto um silêncio gentil e sincero solicita um fiapo que seja do novelo de fazer sentido, essas letras estendem as suas mãos, vazias de fio e de medo, e os dedos, cheios de teimosia. Que tateiam as estantes voláteis. Com as retinas embriagadas pelos ácaros imersos nos goles do extinto vinho, insistem nessa sina estranha. Trôpegas, esbarram em becos, bocas, bicos e quinas. Derrubam os olhos em alguns livros, grossas laudas seculares e, vestindo suas capas, retas, rotas e mofadas, incorporam feiticeiros, mestres, magos, adivinhos. Ressuscitam umas palavras mortas, retiram-lhes o ranço e o cansaço e, vicejando-as nas entrelinhas, essas letras todas zonzas, todas tontas, todas tortas, quase, quase encontram a porta... Mas, para Ariadne, mil esforços ...

DESEMBARQUE

Das viagens feitas com um só destino, despachei certas bagagens sem descuido. O conteúdo fora conferido atentamente ordem a ordem. Não há nada nos Achados & Perdidos. Tudo o que está contido possui autonomia de voo. Trago o mesmo sorriso guardado no bolso dos lábios. Ainda se abre facilmente ao mínimo aceno das delicadezas mornas e improvisadas. O vento é outro. É outra a brisa. O mar, suspenso. Não há estrelas, é dia. Lembranças chegam como um bálsamo aerado entre sussurros. Rasgam o bolso em risos de  canto a canto. E debulham as pétalas da alma arredia. E alisam a calma em conquista suave. Acaricio a lista das permanências e, respirando mais leve, flutuo. Pouso sob um céu reconhecido que me abraça e me faz blues.  Sopros sibilantes trazem para perto, vozes e vozes equidistantes. Desembarco. Entre os diálogos tranquilos e sem pressa. Saudade é bicho que se mata devagar. DESEMBARQUE - Lena Ferreira - mai.15

ÉRAMOS SEIS

- às mães de ontem, de hoje e de amanhã, que sejam felizes as homenagens de todos os dias! - Éramos seis. Nascidos e morando numa vila pequena e carente da Rua Goiás, na Pavuna, onde sofríamos com as enchentes ano após ano. A última, a de 1970, havia levado praticamente todo o pouco que nos restara.  Seu Russo, dono da vila e padrinho de minha irmã mais velha, cedeu uma de suas tantas casas espalhadas pela Baixada Fluminense para morarmos. Uma casa pequena, com quintal e poço, em Nova Iguaçu. Para lá mudamos no mês seguinte, eu, meus cinco irmãos e meus pais levando, numa carroça, o estrado da cama de casal, dois móveis de sala, um colchão, uma cadeira, algumas mudas de roupas e nossa dignidade. Lembro-me bem do dia da mudança, apesar de tão pequena. Não foi difícil me adaptar na nova residência. Mais foi para mamãe. Na Pavuna, ela era conhecida, tinha clientela para suas lavagens de roupa e costura.  Era o trabalho que mais se ajustava à sua condição de cuidar ...

INQUILINO

Moro em mim. E quando abro as janelas, às vezes, a paisagem me assusta e o medo do conhecido me espanta. Às vezes, palavras graves derrubam portas e o baque perturba ainda mais a razão em prejuízo. O juízo, já tão ralo, desce a galopes pela escada.  Às vezes, nada, nada, nada me decora ou me ilumina. Então, fecho as cortinas e durmo um pouco ou procuro um quarto escuso e escuro onde guardo os meus bilhetes - os mais secretos e os mais estranhos e os mais confusos - aos quais recuso dar a luz do esquecimento por apego mero. Espero por um milagre vindo de fora, que não chega enquanto... Enquanto não mudo. Outros cômodos aguardam por faxinas que não faço... Por preguiça ou cansaço ou descaso ou já nem sei - janelas fechadas, espero, espero - É alto o preço de um aluguel pago por tanto tempo estacionado na vaga do senão. Moro em mim. Cheguei até pensar em me mudar, abrindo mão do espaço em vão. Mas, misturado aos meus bilhetes, encontrei este curto recado: abra as janelas, dei...

PELA PORTA DOS FUNDOS

Era cedo e, no espreguiçar rotineiro antes de sair da cama, percebi entrar pela porta dos fundos um silêncio terno que se sentou ao meu lado. Não havia vento nem brisa, apesar da janela aberta. As cortinas iam imóveis e os móveis, parados. Não ouvia o farfalhar dos pássaros como costumeira recepção matinal, apesar de vê-los empoleirados nos galhos. Não havia um sinal de ruído em volta. Nenhum passo nos cômodos, nenhum riso de estio. Tudo era como um delicado vazio. Nada se movia a não ser o pensamento que girava diante dessa situação intrigante. Somente eu, o silêncio e um barulho incômodo vindo de dentro que, há tempos, ensaiava uma conversa. Sem saída, rendi-me aos seus apelos e, assistida pelo silêncio, pus-me a ouvi-lo. Falou-me das insatisfações e dos gritos abafados que suportou calado por conveniência. Falou-me das desistências, de suas vontades e de tantas verdades que me negava a ouvir. Falou-me das somas, dos sumos sumiços e dos compromissos que sempre adiava. Falou-...