sábado, 18 de abril de 2015

PELA PORTA DOS FUNDOS

Era cedo e, no espreguiçar rotineiro antes de sair da cama, percebi entrar pela porta dos fundos um silêncio terno que se sentou ao meu lado. Não havia vento nem brisa, apesar da janela aberta. As cortinas iam imóveis e os móveis, parados. Não ouvia o farfalhar dos pássaros como costumeira recepção matinal, apesar de vê-los empoleirados nos galhos. Não havia um sinal de ruído em volta. Nenhum passo nos cômodos, nenhum riso de estio. Tudo era como um delicado vazio.
Nada se movia a não ser o pensamento que girava diante dessa situação intrigante. Somente eu, o silêncio e um barulho incômodo vindo de dentro que, há tempos, ensaiava uma conversa.
Sem saída, rendi-me aos seus apelos e, assistida pelo silêncio, pus-me a ouvi-lo.
Falou-me das insatisfações e dos gritos abafados que suportou calado por conveniência. Falou-me das desistências, de suas vontades e de tantas verdades que me negava a ouvir. Falou-me das somas, dos sumos sumiços e dos compromissos que sempre adiava. Falou-me das cismas, das oscilações e dos sermões escritos sem pô-los em prática. Da tática, da mística, dos mitos, dos ritos, dos ditos cheios de agonia.  Falou também da necessária competência em lidar com talvezes, senões e poréns sem fazê-los reféns.
E quanto mais falava mais me encolhia, pois no fundo sabia que tinha razão.
Falaria mais ainda nessa manhã estranha e atípica, não fosse um lenço de renda que, espichando-se para ouvir o nosso diálogo, escorregou do armário e espatifou-se no chão.
- Ainda prosseguiremos nessa conversa. - disse-me o barulho. Imediatamente concordei. 
O silêncio, afagando-me por dentro, plantou algumas de suas sementes no meu centro. E, com um aceno de até breve, saiu por onde havia entrado levando nos braços o meu mais profundo agradecimento.
A essa altura, os pássaros mais espertos faziam algazarra no topo das árvores enquanto um vento brincando com as cortinas, provocava gargalhadas nos móveis. A casa sorria novamente, cheia de ruídos.
Aos poucos, tudo voltava a ser como sempre foi.
Menos eu.



PELA PORTA DOS FUNDOS - Lena Ferreira - abr.15

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