quarta-feira, 15 de abril de 2015

RELATOS - III

No alto, onde o silêncio não come, panelas vazias vão cheias de fome. Nos pratos, transbordam as contas de ontens alimentadas por homens bêbados de estrelas. Farinha e fumaça dão liga à fermentação.
Aqui embaixo, não vejo nenhum indício do início das construções. Promessas que sempre surgem em tempos de campanha. “Em breve, creche-escola.” Mas, o agora urge...
E, enquanto meninos dormindo ainda visitam a santa inocência, precoces vestidos de homens acendem morteiros um tanto aturdidos.
Cortam o silêncio que no alto não se aplica alvoroçando o silêncio intocável do outro alto.  Traçantes em febre respondem. Maculam a sua trajetória. Paredes choram as suas feridas. Sangram estilhaços de vidro.
Quando amanhece, jornais correm o asfalto contando por alto o quê do acontecido.

“Balas foram encontradas no peito de um futuro perdido.” diz o legista.


Da madrugada que ninguém sonha, esta é só mais uma notícia que entra na conta da estatística...

 RELATOS - III- Lena Ferreira - abr.15


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