sexta-feira, 26 de junho de 2015

PARA ARIADNE

Num labirinto estreito, letras seguem decididas na busca por uma palavra de estreia. Desafiando mitos, dialoga com os fantasmas nas lacunas pontilhadas rimando os ramos de rumores ralos com os rumos rasos das alucinações lunares.
Enquanto um silêncio gentil e sincero solicita um fiapo que seja do novelo de fazer sentido, essas letras estendem as suas mãos, vazias de fio e de medo, e os dedos, cheios de teimosia. Que tateiam as estantes voláteis.
Com as retinas embriagadas pelos ácaros imersos nos goles do extinto vinho, insistem nessa sina estranha.
Trôpegas, esbarram em becos, bocas, bicos e quinas. Derrubam os olhos em alguns livros, grossas laudas seculares e, vestindo suas capas, retas, rotas e mofadas, incorporam feiticeiros, mestres, magos, adivinhos. Ressuscitam umas palavras mortas, retiram-lhes o ranço e o cansaço e, vicejando-as nas entrelinhas, essas letras todas zonzas, todas tontas, todas tortas, quase, quase encontram a porta...
Mas, para Ariadne, mil esforços não importam se a ponta do novelo for esquecida. Sem o fio da meada, Teseu não encontrará a saída.

(...)

Num labirinto estreito, com os dedos cheios de teimosia, letras seguem a seta de uma sina sem senha.
Dispensando resenhas e altares, retornam aos seus ritos circulares. Ainda que sem novelo ou claraboia. Ainda que entre hiatos e paranoias. Ainda que não poetize. Ainda que não poesia. Seguem. E seguirão a saga dessa sina estranha enquanto o Minotauro não as apanha.



PARA ARIADNE - Lena Ferreira - 
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