sábado, 9 de maio de 2015

ÉRAMOS SEIS

- às mães de ontem, de hoje e de amanhã, que sejam felizes as homenagens de todos os dias! -




Éramos seis. Nascidos e morando numa vila pequena e carente da Rua Goiás, na Pavuna, onde sofríamos com as enchentes ano após ano. A última, a de 1970, havia levado praticamente todo o pouco que nos restara.  Seu Russo, dono da vila e padrinho de minha irmã mais velha, cedeu uma de suas tantas casas espalhadas pela Baixada Fluminense para morarmos. Uma casa pequena, com quintal e poço, em Nova Iguaçu.
Para lá mudamos no mês seguinte, eu, meus cinco irmãos e meus pais levando, numa carroça, o estrado da cama de casal, dois móveis de sala, um colchão, uma cadeira, algumas mudas de roupas e nossa dignidade.
Lembro-me bem do dia da mudança, apesar de tão pequena. Não foi difícil me adaptar na nova residência. Mais foi para mamãe. Na Pavuna, ela era conhecida, tinha clientela para suas lavagens de roupa e costura.  Era o trabalho que mais se ajustava à sua condição de cuidar de uma filha deficiente, a Rita. Ritinha, como todos nós chamávamos. O dinheiro era pouco e a comida escassa. Logo a vizinha, d. Margarida, que também tinha seis filhos, se achegou e ofereceu auxílio. Seu marido trabalhava numa escola e sempre trazia alguma coisa da cantina e dividia conosco. Assim foi por muito tempo. Meu pai perdera o emprego e a situação que já não era confortável, piorou bastante e como não encontrava outro, mamãe arregaçou as mangas e foi à luta, deixando-nos, e principalmente Ritinha, aos cuidados de minha avó Binda, mãe de papai, que viera morar conosco.
Foram anos e anos assim. Mamãe saía de casa antes mesmo do sol e retornava já bem tarde, sempre calada, sempre cansada, olhos preocupados.

Nos finais de semana, minha diversão passou a ser ir com ela ao mercado. Lista na mão anotava o valor de cada item e fazia a soma pra não ultrapassar as contas do caixa. Certa vez, um deslize e a quantia da carteira não satisfez a quantia da nota e notei seus olhos cheios enquanto retirava alguns itens da sacola pra ajustar a conta.
Minha mãe pouco falava, mas seus olhos sempre disseram muito.

Finalmente meu pai arrumou emprego e assim, pensei que mamãe sairia do dela e estaria mais presente, mas não. Havia se acostumado com a rotina. E com o salário, com o qual custeou escola particular para todos nós, sonhando um futuro melhor que o dela.  Pouco comia, mas fumava muito e, sobrecarregada de trabalho e silêncios, sofreu um AVC. Recuperada, retornou ao trabalho, agora mais falante e embora com sequelas, podíamos contar com um sorriso no seu rosto. Um sorriso vitorioso sobre a doença, talvez. Mudou alguns hábitos, mas a vontade de nos ver vivendo em melhores condições sempre a empurrou pro batente.

Ritinha, dizia, era caso perdido. Porém, cuidávamos com carinho e zelo, como criança fosse apesar de ser bem mais velha que eu. Apesar dos cuidados, deixou-nos depois de uma longa e triste pneumonia. Sofremos todos, claro. Mas sinto que mamãe tenha sofrido mais. Afinal, não é natural que um filho parta antes que seus pais.

 Por essas passagens descritas e outras tantas que também não caberiam, digo que minha mãe foi e é uma guerreira. Venceu batalhas solitárias, chorou suas lágrimas sozinhas, deixou de comer para que os filhos comessem. Foi e é nossa fortaleza e nosso abrigo. Educou e ensinou mesmo que por necessidade se mostrasse distante e calada e, muitas vezes, ausente. Minha mãe, que hoje é também avó e bisavó, sempre foi uma mulher de verdade e da verdade. Até hoje nos ensina a lutar pela vida, com dignidade, seja qual for o peso da nossa bagagem.

Queira Deus que assim continue por muito, muito mais tempo entre nós, amando e sendo amada e servindo-nos de exemplo para que sigamos, por tudo que fez e que ainda tem feito rendendo-lhe justas, merecidas e diárias homenagens.




ÉRAMOS SEIS - Lena Ferreira - mai.15
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