domingo, 17 de maio de 2015

CORAGEM LEONINA

Venho de amparar líquidas mágoas
que cutucavam a visão de hora em hora
e, espiãs das lágrimas nascidas cedo,
sorriam secretamente da indiscrição
de cada parto, melancólico e sem fim
circundando rotas e velhas respostas
todas senhoras de certezas seculares
lancei outras perguntas em segredo
silenciando cada ruga de expressão
de cada vírgula entre o sim e o talvez
outro hiato então se fez nesse ofício
e foi difícil prosseguir na trajetória
já que a história reprisava o enredo
já que, sem medo, desejava ir além
quase rendida pela circunstâncias
toda rendada por desimportâncias
bebi todo silêncio que me oferecia
e nessa afonia  incômoda, sobrevivi
farto foi o fardo dos velhos cansaços
que suaram nesse exercício inútil e tolo
onde o dolo tinha odor de recompensa
em frascos longilíneos e inesgotáveis
entre o desisto e o sigo em frente
a claridade duelava com o puro breu
sob o olhar isento das mansas águas
numa batalha sem glórias ou garantias
ao fim, uma coragem leonina tomou posse
de tudo daquilo que se perdera entre as mágoas
e, embora venha  com as duas mãos vazias,
o que já me pertencia voltou a ser meu




CORAGEM LEONINA - Lena Ferreira - mai.15
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