quinta-feira, 1 de maio de 2014

MERGULHO

A tarde, caminhando preguiçosa de mãos dadas com um vento quase brisa, quase frio, levava dois pés pela areia da praia onde as ondas pequeninas de um mar deitado numa  calma breve, oscilando leve, leve, ameaçava virar, lá longe, um barco repleto de certezas concretas.
Secretas, gotas de maresia, beijavam seus medos enquanto, fincado na beira, tentava se distrair com punhados de areia a escorrer por entre  dedos. Inútil...Um nó na garganta, uma angústia extremada, um cheiro de covardia, um gosto de pavor perturbava-o com a possibilidade de ver o naufrágio de um barco tão frágil.
Cogitou um mergulho. Afinal, eram águas tranquilas, eram águas tão mansas. Eram águas serenas. Era assim que pensava. Nada sabia do que se passava no meio do fundo. Nada sabia enquanto mergulhava. Braçadas, braçadas, braçadas... E o pensamento aflito fervia em considerações. E descobertas. Nem percebeu que o mar levantava-se em agito e graves oscilações. 
Foi-se o barco e  as certezas, uma a uma...
De volta  à areia, entre as espumas de cansaço,  um outro vento, quase brisa, quase frio, ofereceu-lhe um abraço e sussurrou-lhe uma  palavra discreta ao pé do seu ouvido, fazendo-o levantar. De longe, podia-se ouvir a palavra 'mergulho'. Ou teria sido 'me orgulho'?


MERGULHO – Lena Ferreira – mai.14
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