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POR LÁ

E foram calmos esses dias passados entre um verde muito vivo e um azul celeste inimaginável que me amanhecia. Vendo o sol se espreguiçando bem cedinho e, sorrindo, pedindo licença às nuvens raras para iluminar o céu todinho, todinho, tão calmo... Calmos dias de se molhar os pés na grama orvalhada, respirando o presente, o instante. De se tomar um matinal na varanda dividindo os farelos com os bichinhos, visitantes . De estender roupas nos varais e ficar observando a dança doce patrocinada pelo vento. De preparar refeições alegres e tirar uma boa soneca após o almoço. E sonhar. Sonhar, sempre. Sonhar leve e macio. Fácil nesses dias acordar entre a algazarra dos passarinhos e o farfalhar do vento lambendo as saias das árvores, num quase fim de tarde. E, sem alarde, acompanhar a noite trazendo estrelas, uma a uma e, tão de perto, que era certa a impressão de que estendendo um pouquinho assim a mão, poderia tocá-las. O balé dos vagalumes apresentava, a cada noite, uma nova c...

COLHEITA

Sentada no quintal amanhecido envolta pelos ares da primavera observa os frutos que foram colhidos e, silenciosa, agradece a espera Com uma prece breve e sincera por ter, boas sementes, escolhido pela fé de quem não se desespera pela coragem, por não ter desistido Apesar da aridez do solo, dos ventos e das chuvas em excesso, o intento fora alcançado, com amor e cuidado Sentada, calma, entre frutos e flores respira as delícias, odores e sabores, de colher tudo aquilo que fora plantado COLHEITA - Lena Ferreira - set.14

PUPILA

Quando esses olhos nasceram morreram os inúteis prantos que, caminhando alma adentro transformavam em nó, o laço externo Quando esses olhos nasceram milagres migraram pro canto que, escorrendo por dentro, iluminaram o espaço interno Quando esses olhos nasceram sorrisos cantaram acalantos que embalaram o centro equilibrando o compasso - mais terno - Quando esses olhos nasceram pensaram em dar-lhes nome santo já que eles servem de unguento já que são como um abraço eterno PUPILA - Lena Ferreira – set.14

QUE ME CARREGA

Carrego o mar desde o batismo e vê-lo sempre me alimenta à alma, viço acrescenta na vida, afasta-me do abismo Se dele ponho-me distante por muito tempo, entristeço no espelho, não me reconheço na estrada, não sigo adiante É como se uma extensa bruma cobrisse meus olhos e a espuma das ondas mudassem de endereço Carrego o mar que me carrega quando o vejo, é tão inteira a entrega que, de tudo em volta, me esqueço QUE ME CARREGA – Lena Ferreira – set.14 *mote* Angela Chagas

NO AUGE

Sonhava ser a poetisa eleita Aquela que só escreve suavidades Aquela da rima exata e perfeita Aquela que não inventa verdades Sonhava ser aquela que só deita A inspiração, a sua enormidade, Em pergaminhos alvos e ajeita Nas entrelinhas, desejos, vontades Sonhava ser a que de tudo sabe E, no auge da vaidade que me cabe, Sonhava-me poetisa idolatrada A realidade, com dentes de sabre, Morde-me os olhos que logo se abrem; Desperto e, fora o sonho, não sou nada! NO AUGE – Lena Ferreira – ago.14 *mote VAIDADE - Florbela Espanca *

MÁGOA

É quando as palavras explodem e seus cacos pontudos recortam a alma que sangra e, sangrando, consome- se ressente Vem o tempo que estanca a sangria o mesmo tempo que cicatriza o corte que some e sumindo num sumiço aparente... ...decora o sótão da mente MÁGOA – Lena Ferreira – set.14  *mote* Rodrigo Olem

outubro

Imagem
*** dos sonhos crudelíssimos que ocorrem nas noites assombrosas e ainda frias nascem-me mais vazantes em agonias que pelos olhos doidos ora escorrem bem tento afugentá-los mas não correm; insistem em perturbar-me até de dia arrastando o passado qual sangria que não desata e o presente colore em  tons medonhos de um estranho rubro com os quais, incauta e ingenuamente, cubro a alma, o corpo e a mente... pesadelo! conforta-me a chegada de outubro; nas luzes de seu aceno é que  vislumbro sonhos em sono ameno - hei de tê-los - *mote - CAMINHO soneto de Camilo Pessanha *