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CORAGEM LEONINA

Venho de amparar líquidas mágoas que cutucavam a visão de hora em hora e, espiãs das lágrimas nascidas cedo, sorriam secretamente da indiscrição de cada parto, melancólico e sem fim circundando rotas e velhas respostas todas senhoras de certezas seculares lancei outras perguntas em segredo silenciando cada ruga de expressão de cada vírgula entre o sim e o talvez outro hiato então se fez nesse ofício e foi difícil prosseguir na trajetória já que a história reprisava o enredo já que, sem medo, desejava ir além quase rendida pela circunstâncias toda rendada por desimportâncias bebi todo silêncio que me oferecia e nessa afonia  incômoda, sobrevivi farto foi o fardo dos velhos cansaços que suaram nesse exercício inútil e tolo onde o dolo tinha odor de recompensa em frascos longilíneos e inesgotáveis entre o desisto e o sigo em frente a claridade duelava com o puro breu sob o olhar isento das mansas águas numa batalha sem glórias ou ga...

MISSIVA

As notícias das tuas pegadas em terras tenras então estrangeiras pousaram bem calmas nestas mãos aflitas desdobrando o viés de uma saudade latente letras lidas ponto a ponto com a ponta dos dedos trouxeram para perto a ilusão do teu quê tão distante na desdobra, um aroma almiscarado sossegou os sentidos - mesmo que por um raro e brevíssimo instante - num aconchego terno, a missiva abrasou o meu peito enquanto um azul ultramarino testemunhava as nuvens que passeavam vagarosamente pelo meu céu logo choveu... uma chuva quieta e fininha pelos olhos miúdos  em gotas de esperança de que na volta de tantas andanças outras nuvens virão carregadas pela tua alegria tranquila MISSIVA - Lena Ferreira - mai.15

OFERTA

Oferto-te os meus olhos cônscios debruçados nas horas tranquilas quando os desassossegos cochilam e a calma beija os cílios por dentro Há tempos espero-os assim leves e silenciosamente expressivos espelhando os motivos do instante Oferto-os em detalhes mansos debruçados nas horas discretas que tanto pedem a tua presença e tanto pendem se de ti distantes Ah, este é o momento perfeito toma-os para que me pertença o que, no fundo, levo no  peito OFERTA  - Lena Ferreira - mai.15

DE PAPEL E NUVENS

Um barco feito de papel e nuvens barco pequeno que se atreve ao mar enfuna as dobras nessas águas frias corta oceanos, contorna os naufrágios lança suas sedes pescando  ilusões singra a sua saga, sangrando as marés  desafiando medos, faróis e rochedos engole as ondas de arenosas espumas   e, pagando o preço pelo atrevimento, breves avarias ancoram o seu cansaço retorna ao porto nos braços do vento atracando os fracassos aos pés da areia desdobra as nuvens num quase descanso desfeitas em chuvas de refazimento DE PAPEL E NUVENS - Lena Ferreira - mai.15

ENTRE OS SUORES CEGOS

Certas notícias forasteiras trazem a impressão de rumores precisos às cidadelas e, fabricando os tipos, fomentam bocas com as suas ilusões venais Correm as vielas, sobem escadarias degrau, degrau, entre os suores cegos negritando os pingos da não-novidade saciam sedes secas fartas desestruturais O pó do tempo a tanto tempo escasso desfaz seu riso gestado à surpresas desce as escadas e, imprimindo pressa, despensa o que só interessa a esses jornais   ENTRE OS SUORES CEGOS - Lena Ferreira - mai.15

SOBRE OS ARCOS

Com passos de espera inverniça caminho leve, apreciando a paisagem de um outono morno e tão incerto como os meus pensamentos vãos as folhas no caminho, semimortas esboçam um sorriso enraizado contrafeitas com o destino natural: foram escolhas? foram escolhas? divago nessas interrogações enquanto os meus passos se amiúdam como adivinhassem necessário o instante pondo-me diante da ponte imponente meus olhos se enchem sobre os arcos bebendo a visão majestosa ao redor um cheiro de estiagem passeia por mim enquanto uma brisa temperada me abraça sob a ponte que separa os meus mundos um córrego, manso, frio e fino recolhe as folhas despidas dos galhos levando-as para muito além do mais ao longe, ouço ainda alguns murmúrios e os assovios não consentem o abafar: foram escolhas? foram escolhas? - o inverno não tarda em chegar - SOBRE OS ARCOS - Lena Ferreira -

A ESTUFA

Uma estufa que só orvalho produzia recebeu o suave sopro de um bom vento renovando o ar com nobre sentimento acordou a rica semente que dormia Ia alta a noite, mas bem parecia que o sol havia entrado porta adentro vicejando raízes, talos e o centro respondendo como quem amanhecia Da semente fez-se muda e, germinada, gerou outras mudas, todas replantadas onde a florescência tende à fartura A estufa que só produzia orvalho hoje está replena em flor e cada galho, grato ao vento, exala essência de ternura A ESTUFA - Lena Ferreira - mai.15