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NO QUINTAL

  Desde muito pequenina que esta mente, campo fértil, pegou delírio. Deitada na grama estreita que quarava roupas no fundo do quintal, contava as inúmeras vezes que as nuvens mudavam de forma e ficava por incontáveis minutos, distraída e só, imaginando danças de núpcias, funerais, vida e festas, folguedos e muito mais... De quando em quando, o vento mudava o enredo e lá ia eu para outro delírio. E, só.  Voava em pensamento com as pipas coloridas que salpicando o céu de dezembro, lambia-o com suas rabiolas-bailarinas e quando eram ‘cortadas’ após um duelo coreográfico, meu pensamento ia encontrá-las no suposto lugar da queda, acarinhando as ‘feridas’. Mas logo seguia em outra viagem. Olhava para o jardim ralo que, cercado por um canavial, assustava muita gente. Para mim,  nunca foi um jardim somente. Era o mundo inteiro que eu  conhecia e era imenso e me pertencia. As árvores eram minhas irmãs e confidentes. Ouviam pacientes, segredos e medos infantes e respo...

SEM MAIS

Um dia, saberás dos desmotivos e quando o acaso acontecer  pressinto-te em espanto ao concluirdes que a loucura que supunhas habitar-me vai muito além do que pudeste pressupor Não encontrarás nenhuma pontinha de orgulho ou medo ou pretensão no labirinto que, calado, adentrarás ou nesse nada raso e vasto como me julgas  em vazio à imensidão dos que consentem. - um dia, saberás dos desmotivos; teus olhos vívidos logo verão e identificarão os raros sinais – Sem mais por hora, o que me resta é essa espera  sem ais. SEM MAIS - Lena Ferreira- nov.14

CONFIA

- Em memória ao meu ''vô'' José Ferreira - Possuía o dom inexplicável de aquietar-me a ansiedade. Sentava-se ao meu lado e, como quem nada quisesse, recolhia minhas mãos ao seu peito e com um jeito particular e delicado, roçava os seus magros dedos no vão dos meus. Ficávamos assim por horas, num silêncio oportuno, desprecisados de palavras e gestos. Às vezes, um vento estranho e torto passeava pelos quintais da minha distraída mente, despertando medos vazios e tolos. Era o suficiente para que brotassem estrelas pequeninas e cintilantes nos meus olhos, prestes a escorrer pelos cílios. Ele intuia sempre esse tal vento em desvario vário e antes que a constelação despencasse, rompia seu silêncio solidário com sua voz de algodão que enchia o ambiente  numa só palavra: confia. Com essa sinalização, respirava largo e fundo e engolindo a cintilância das estrelas, extinguia o gosto amargo do pensar no que não devia. O silêncio então voltava a se sentar entre nós dois e com ...

ROGO

(...)aflição de te amar, se te comove e sendo água, amor, querer ser terra" - Hilda Hilst - E sendo mar, assim tão inconstante, adormeço nas ondas densas de afagos enquanto rogo aos deuses, santos e pagãos:  - Misericórdia, misericórdia! Faz-me terra, um porto um tanto mais seguro. Asseguro-vos que assim sendo, sendo assim, entenderei a pulsação que vai na palma. E que amar é qual  sereno, leve, leve. É  brisa, brisa fresca  e constante. É alma mansa e não essa tempestade febril e enfermiça  que cansa e eriça os  nervos em alarde. E arde à flor da pele. E inflama a calma, tornando irritadiça toda a lava que ia adormecida, afastando possibilidades; as possíveis e as improváveis. Misericórdia... Faz-me terra e, devotada, apagar-se-ão as chamas que consomem este meu mar. Faz-me terra, passos firmes, resolutos, já que luto pela calma em tanto amar... ROGO – Lena Ferreira – nov.14

CONCEPÇÃO

Hei de fazer-te um poema mesmo que, quando o leias, desidentifique-te absurdando pelas imagens propostas supondo-me em loucura ao concebê-las Terão estrelas, como esses teus  olhos de enigma que gotejam em cada um dos cheios versos seduzindo as nuvens macias enfeitiçando toda a passarada Serão aladas todas as letras e voejando, soltas e leves circundarão o teu pensamento percorrerão artérias e veias Terão sereias, tritões, ondas e ondas e no mergulho em vivas águas respirarás um ar mais do que puro expirarás mais e mais poesia Será o dia mais que perfeito o dia em que este poema conceba somente assim asserena este peito mesmo que ao lê-lo, nada  percebas Hei de fazer-te um poema... CONCEPÇÃO – Lena Ferreira - nov.14

rimas secretas

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... a s coisas que não dissemos - supondo-as subentendidas - descansam nas entrelinhas dos versos engavetados - mas, na vaga da alma, roçam - pergunto se há quem possa destrancar essas gavetas e, em minuciosa e sã leitura, esmiuçar as secretas rimas - só um silêncio extenso me responde - pergunto, então, quando e onde perdemos a sintonia: perdemos a sintonia? - mas a resposta se esconde - pudesse, trocava a chave por beijos de maresia e, despida de garantias, deitaria as rimas mais secretas nesses teus lábios finos de gosto grave RIMAS SECRETAS – Lena Ferreira – nov.14

COMUNHÃO

O verso ouviu o vento e estremeceu temendo ser levado a um canto escuso temendo pelo modo inconcluso com o qual a pena frágil o escreveu O vento, percebendo o medo tanto do verso, se achegou e mansamente soprou em suas letras docemente aquietando a febre e o quase pranto Dizendo, com cuidado e com carinho: te levarei comigo por caminhos distintos, diferentes; bem diversos Dá-me tua mão sem medo; só confia assim como quem ama, a poesia é comunhão, pertence ao Universo COMUNHÃO – Lena Ferreira – nov.14