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NA VARANDA

Um passo até a varanda do pensamento e já é um começo. Aliviar a tensão dos ares do interior mofado, uma necessidade. Bom mesmo seria uma faxina, retirando toda tralha, toda sorte de poeira, todo entulho, todo nada, vazio. Mas, na impossibilidade momentânea evidente, um passo para fora, penso ser mais previdente: um trago de sol, de brisa e de vento e de simplicidade. Novos ares para o mesmo momento. Outras cores para a realidade. Novo fôlego para os sentimentos. Novo ânimo para mais um recomeço. Vontade que realizo. Um passo até a varanda do pensamento e clareio o juízo entre o que penso que mereço e o que, de fato, preciso. NA VARANDA – Lena Ferreira – jul.14

ESBOÇO

Recolheu cada um dos estilhaços de tudo que foi um dia e cortando-se,  nem mais tentou estancar a hemorragia; nas mãos sangrando, certas certezas virariam cinzas Enquanto dúvidas ardiam como  brasas vivas nos seus pés, luas seguiam se alternando na órbita do seu pensamento e o sol de dentro, de tempo em tempo, recusava-se a acordar Em que mundo andei enquanto tudo aquilo acontecia? Onde estiveram esses meus olhos quando mais era preciso? - perguntas batiam à porta; respostas saltavam pela janela - Um esboço em primária aquarela disposto na mesa no canto da sala falava de um profundo abismo bebido a largos goles de vertigens emoldurado por espinhos virgens que lhes servira de abrigo Eis no esboço, suponho, a  pista  mais crua, na vista e tão nua: enquanto tudo acontecia, bebia o abismo do mundo da lua e, bêbados, entorpecidos, os olhos orbitam  somente o umbigo ESBOÇO – Lena Ferreira – jul.14

DESSE RISO

É desse riso que acorda o dia e que contagia tudo, tudo em volta É desse riso onde nasce a alegria e que as amarras sempre, sempre solta É desse riso onde a paz se desenha e que a alma sempre, sempre sereniza É desse o riso que falo e que venha; é desse riso que o mundo precisa DESSE RISO – Lena Ferreira – jul.14

SERENATA

O poema não despenca, desce em pluma em tão suave e delicada serenata num vagar feito densa e oculta bruma descem versos e mais versos qual cascata O poema não despenca, descem em pluma deslizando pelo ouvido, chega à alma até que, do seu leitor, o sentir consuma e reintegre, totalmente, a sua calma O poema não despenca, desce em pluma dedilhando lindas notas, uma a uma e traz, sempre, suas rimas mais sensatas O poema desde em pluma, tão sereno e com seu suavizar, seu canto ameno feito pluma, canta em versos, serenata SERENATA - Lena Ferreira  -  *publicado originalmente no livro ''Entre sonhos'' - Ed. Utopia - 2011*

VERMELHO VELUDO

Tentava despir-me de tua presença vestindo - ensaio - ares de mistério intercalados com olhares sérios Pensava ser mais fácil e toda tensa me vi caindo em grande despautério quando pulaste o muro deste império: Um salão vermelho forrado com veludo que, na tua presença, perde o escudo VERMELHO VELUDO - Lena Ferreira - jul.14

COLEÇÃO

E foi colecionando tempestades que aprendeu a ingerir nuvens de peso a absorver as suas gotas com vontade e a absolver o tempo, injustamente preso Na ingestão, as nuvens sublimadas estacionavam bem no canto esquerdo - por uns instantes; logo, alvoroçadas corriam pelos quintais da voz em segredo - COLEÇÃO – Lena Ferreira - 2014

ADUBO

Costumava cultivar alguns silêncios em pequeninos vasos na janela Alguns nasciam dispostos, mesmo sem norma e sem regra Outros cresciam dispostos mesmo, pelo excesso de rega Dos poucos que murcharam, descuidados, nasceriam alguns gritos Mas, transformados em adubo, fertilizaram os diálogos mais bonitos ADUBO – Lena Ferreira – jul.14