Postagens

QUEM

Quem, ao recordar o seu passado nunca soltou uma risada boa (ou pelo beijo que fora roubado, ou por tropeços bobos, coisa à toa) Quem não chorou diante do presente arrependido pela escolha errada e jurou fazer tudo diferente mesmo depois da porta arrombada Quem não morreu de frio, tédio ou medo quem não deixou escapar um segredo quem nunca pediu colo ou guarida Quem não caiu e ralou os joelhos e, de chorar, teve os olhos vermelhos jamais viveu, só passou pela vida... QUEM - Lena Ferreira -

TRISTEZAS OCEÂNICAS

Tristezas oceânicas se alargam se nadas nas lembranças sem preparo trazendo à tona as que a boca amarga; eventos que não ficaram bem claros Tristezas desse jeito, paralisam teus passos, do presente pro futuro a alma, o olhar à vida, marmorizam e, até na claridade, vês escuro Tristezas, pelos olhos, liquefeitas escorrem até desmaiarem no leito; é onde morrem mas, não satisfeitas, ressuscitando, alagarão teu peito TRISTEZAS OCEÂNICAS – Lena Ferreira – fev.14

ESCALADA

Principio escalada penhasco íngreme inspirando possibilidades Agarrada ao desafio desteço sustos, destraço medos, destruo surtos, destravo segredos Presa à coragem solto as feras, saltam as veias suam sensações (bagagem? bobagem! vertigem? voragem!) Se canso, descanso bebendo paisagem Se caio, levando desvio miragem  Persisto... Escalo me ralo não calo o discurso Respiro descompasso transpiro probabilidades Agora a questão: o que vale suar o rosto é chegar a qualquer custo ao topo? eu penso que não A glória da escalada: experimentar, gota a gota, o gosto do percurso da paisagem aspirando inspiração ESCALADA – Lena Ferreira – 12(...)14

DESAFIO

Observar o mar bravio em seu recuo causa-me um misto de espanto e fascínio como resposta a uma provocação do vento revira o fundo; conchas, pedras, lodo, limo Trava batalha inglória e incauta com rochedos fragmentando a calma - a posse, o seu domínio - ondas crescentes em altura e volume tombam em gritos acordando tolos medos Quando retorna à praia, traz, entre as espumas, todo o desgaste salmourado e em seu declínio deita e, cansado, espera por horas de estio - mas, para o mar, qualquer espera é um desafio... - DESAFIO – Lena Ferreira – fev.14

OPÇÃO

Se dou ouvidos à palavra amarga - a carga, o peso, o ácido da língua - sobrecarrega os ombros e estraga o dia, a noite e tudo em volta míngua Se dou as mãos para a palavra leve - com dedos que possuem peso-pena - o pensamento muda e não se atreve a desviar das coisas mais amenas (...) Se tenho a referência do que pesa à alma e o que a ela acrescenta, dispensarei, então, a que me lesa e abraço a que do bem me alimenta OPÇÃO – Lena Ferreira – fev.14

ROGATIVA

Um ser composto por idas e voltas patrocinadas pelo que o excede palavra o rastro das reviravoltas vincando a ponta do que não se mede Um ser composto por fases da lua exacerbadas pela cisma fútil penitencia o verbo além da rua mas o silêncio, armado, é inútil O mesmo ser, com um posto provisório, de jeito grave e gestos transitórios, já ensaiou adeuses sem a palma O mesmo ser - loucura ou heresia? - se prostra aos pés da santa, a poesia, e roga ao verso que retorne à alma... ROGATIVA – Lena Ferreira – jan.14

TOMARA

O sol tem acordado bem mais quente num céu de um azul anil que grita deixando uma multidão aflita; suando corpos, derretendo mentes E num verão de calor inclemente qualquer palavra queima se mal dita modificando a expressão contrita para trovões e raios recorrentes Mesmo sem nuvens, nessa hora chove parece, o céu, até que se comove e, pelos olhos, desce sem censura Tomara que, por fora, logo chova molhe a palavra e, enfim, promova delicadezas, gestos de ternura... TOMARA - Lena Ferreira - fev.14