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CAIS

A voz do barco ancorado na beira do cais lembra-me os ais alicerçados em aflições dementes de quem lamenta inevitáveis chuvas, temporais levando tudo o que supunha firme à sua frente Recorda o tempo em que desafiava vendavais ao recortar os sete mares, imponente, juntando glórias desse mundo e de outros mais atravancava, com o passado, o seu presente A voz do barco ancorado, engasgada em ais me parte o peito em fatias reticentes; sei da sua força, impoluta, que é bem mais, bem mais do que esse orgulho que a torna deprimente CAIS - Lena Ferreira - jan.14

OXIDÁVEL

Andei observando o vai e vem da porta e as vozes aciduladas das dobradiças acordaram pensamentos improváveis acerca de um destino tolo, sem revolta onde a sua volta seria a chave mestra para a felicidade -tonta- terna eternizada Mas o desgaste causado pelo tempo - implacável nos momentos imprecisos - fez-me ranger os muitos dentes magoados pelas memórias doloridas por descaso Andei observando o vai e vem da porta e o desconforto no ouvido enlouquecido abriu meus olhos pr'um futuro oxidado onde os pedaços de nós já corroídos escorreriam pelos vãos dos outros dedos e os segredos nunca mais seriam meus... OXIDÁVEL - Lena Ferreira -

NUANCES

Quereria os teus passos como nuvens de um céu azul profundo tal teus olhos Os teus dedos, quereria-os violáceos perfumando o meu segredo sob a pele Os teus beijos, quereria-os num vívido carmim tal pétalas acetinadas de uma rosa virgem Quereria teus olhares num alaranjado fim-de-tarde debruçados no relevo do meu corpo Quereria todo esse amor líquido, perfumado com aromas de alfazema e verbena e sussurrando num quasar alucinante de um poema imperfeito respiraria as tuas nuances de ternura NUANCES - Lena Ferreira -

JANELAS

Nessas janelas, o tempo dispara: já me brindou com as manhãs amenas dando passagem às brisas serenas; lembranças que, com nada, se compara Nessas janelas, o vento não para: soprando o peso das coisas pequenas deixou-me só o que importa; apenas o que à alma é ternura e o que sara Essas janelas que já viram tanto; tristeza, amores, choro, riso, pranto hoje me mostram, do rumo, o centro: Por fora, vemos mas não enxergamos e, quando isso, mais nos dispersamos; chegou a hora de olharmos pra dentro... JANELAS - Lena Ferreira – jan.14

ATENTA

Atenta às notas dessa melodia que o vento espalha pelo universo colore o céu, a alma, a noite e o dia respira com a leveza de um verso Atenta aos acordes, tão sensíveis inspira vida nova em novos passos estejas certo, são inesquecíveis e não há ledo engano no compasso Atenta e sinta cada nota - vivas - isola o teu ouvido a todo resto e assim, com muitas palmas; efusivas, louvemos o talento do Maestro! ATENTA - Lena Ferreira - jan.14

CONTANDO ESTRELAS

Perco-me a contar as estrelas que brincam no céu da sua boca grávida de sonhos e promessas salivando entre a razão e a loucura E da ternura desse seu sorriso bebo as gotas mais singelas afagando com dedos de brisa cada onda gris dos seus cabelos Abraço o mar bem no seu peito e acalento o meu sonho mais secreto: pássaros bebendo da sanidade que retém os meus pés no chão Perco-me a contar estrelas e nem percebo o que na noite acontece - só me dou conta que o seu sol me amanhece - CONTANDO ESTRELAS - Lena Ferreira -

SEMEAMOR

Se a terra é fértil, a semente vinga se está imprópria, basta que zelemos limpando o todo que se encontra a míngua então, com ela, nós floresceremos Com força e viço cumprirá sua sina: ser pura essência e florir com jeito pois seu perfume o entorno contamina e, sim, começa bem aqui no peito Para que desabroche e permaneça viva por muito, muito, muito tempo é importante, e por favor, não esqueças de protegê-la quando maus momentos E quando bons, estampa teu sorriso ao espalhar os frutos que colheste por outras terras - pelo bem preciso - semeamor pois tu já floresceste SEMEAMOR - Lena Ferreira - jan.14