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DEZEMBRO-ME

Dezembro-me pois Ipanema me chama para dourar os meus pelos e beijar a minha face morena E a brisa morna convida a um passeio distinto entre os beijos discretos da areia com as ondas amenas Dezembro-me pois o Arpoador me acena  para admirar o por do sol de mãos dadas com a cena E as pedras úmidas de maresia puxam conversas idosas entre um sopro de vento e um gole de noite plena Dezembro-me antecipando, verão Oxum conclamando bela, amorosa e sirena: desfila tua felicidade, Serena DEZEMBRO-ME - Lena Ferreira -

COMBINADO?

Então fica combinado que, a partir de agora, não voltaremos ao passado inutilmente. Que sejamos, tão somente, visitantes breves dos fatos que mereçam ser repetidos e não seus hóspedes permanentes. Que sejamos honestos ao olhar os acontecime ntos que nos causaram decepções com maturidade suficiente para reconhecer que nem sempre o erro foi do outro; assimilar, aprender e seguir em frente com o autoperdão. Que não sejamos meros expectadores do nosso futuro, nem de leve, e sim, trabalhadores árduos neste merecido presente. Combinemos que, com sutilezas, ergueremos pontes e derrubando muros, alargaremos horizontes. Retirando o pó das palavras construtivas – ouvidos atentos aos detalhes que o vento nos traz – iremos além. Que sejamos, de fato, presentes - modo e adjetivo - e tenhamos motivos de sobra para comemorar o simples fato de estarmos vivos. COMBINADO? - Lena Ferreira - abr.13

ALÉM DA FACHADA

Ao andar pelas ruas do meu bairro, vejo casas diversas. Algumas velhas, bem antigas, caindo aos pedaços, jardins mal tratados. Outras, reformadas, exibem um certo luxo. Outras, poucas, novas, aparentam alegrias...Umas com suas portas e janelas trancadas por esse ou outro motivo. Outras, com frestas convidativas e sorridentes. Mas esses detalhes são apenas sobre suas fachadas. Não podemos ver o que acontece lá dentro, só de passagem. Quem sabe na casa em ruínas, residam riquezas... Quem sabe na casa-sorriso, residam tristezas... Quem sabe na casa trancada perderam uma chave; a da confiança.. Para sabermos, é preciso que, consentidos, entremos e convivamos por um mínimo de tempo em cada ambiência. Avaliando somente por fora e à distância, corremos o risco da mera ilusão que nos faz reféns da aparência; não raro, desprezamos a essência. Ao andar pelas ruas do meu bairro, como num vai e vem, penso na vida e nessa analogia: somos casa também... ALÉM DA FACHA...

AMARCURA

Olhei pro alto e lá estava ela a censurar a tola atitude com um tom tão doce, tão suave e bela; tão diferente do meu tom que, rude, Faz deslizar, em suposta esparrela, minh'alma que, por bem pouco, se ilude e iludida, tem como sequela distanciamento em fuga amiúde Mas a censura tem seu fundamento fechando os olhos, mudo o pensamento: pra alma ferida, somente amar cura Tão belo e doce é esse ensinamento que a lua deu-me e não muda com o vento: bem pouco vale a vida sem ternura AMARCURA - Lena Ferreira - nov.13

SILENCIAMENTO

Prenuncio o precipício do que foi um terno início. E o indício mais que claro é o diálogo difícil. Um passo a mais e é o abismo . Um a menos, o conformismo. Um ou outro, engolindo o sentimento que, por tempos, pensei nós. Mas... Muitos nós alargaram os hiatos entre os sóis...e os sós. Eu, que nasci com impulsos na ponta dos dedos e gritos na ponta da língua, surpreendentemente, sentencio-me ao silenciamento. Deixa assim... Se mais tempo permaneço falando e falando e gritando e gritando, insistentemente reclamando pelo que, mostra, não me pertence, certamente estarei condenando o verbo bendito a qualquer coisa mendicável, volúvel e hemorrágica , capaz de sangrar além da amenia. Deste modo, distantes os corpos e os ditos, blindado no canto esquerdo e na mente, resguardo, intactas, as memórias sonhadas vívidas por mim. Deixa assim... E pra não dizer adeus, brindemos com um velho e bom Bourbon. (é quando esqueço alguns detalhes pra lem...

DEIXA ASSIM

Não foi por falta de amor, foi por zelo que me distanciei. Se mais tempo permanecesse, ele, o amor, teria se transformado em qualquer coisa dolorida e odiosa e hemorrágica. Desse modo, distanciados os corpos e os verbos, ele, o amor, continuará intacto. Deixa assim, pra não passar do ponto(final)... DEIXA ASSIM - Lena Ferreira - nov.13

POEMEU

nasci com algumas vírgulas; no in'pulso exclamações dançam na ponta da língua e as interrogações, num ato convulso, saltam da boca e a saliva ainda à míngua às vezes, os hiatos tomam meu posto e, assim como as vírgulas, de tempo em tempo, parênteses e aspas, a contragosto, explicam o que logo se esvai com o vento esses detalhes, conto eu em displicência sem intenção de comover quem quer que seja pois, normalmente, vou espalhando reticências onde o bendito ponto final, seu posto almeja POEMEU – Lena Ferreira – nov.13