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PARADOXO

Sentir o ar faltando e sentir sede e ser a rede pro próprio cansaço forjando o aço frágil da estrutura com uma ternura farta no sorriso Sentir o beijo das brisas serenas e ser pequena diante do desejo de agarrar as beiradas do vento num chamamento imune à negação  Sentir a palavra dançar qual folha e ser escolha  enxergar um poema - onde o problema é visto pelos doutos outros equacionam os seus dilemas - PARADOXO - Lena Ferreira - 

CANTO PRIMEIRO

Cessa o vento quando o canto ecoa em sibilos dos mais vários cantos a cantiga que o instante entoa contagia os corações, os tantos Que vagavam pela vida estreita ressentidos, como bandoleiros com suas liras em dores suspeitas iam surdos ao Canto Primeiro Cessa o vento - no efeito das notas os sentires tomam outras rotas olhos passam a enxergar bem mais os ouvidos, muito mais sensíveis, abrem-se para os sons aprazíveis dos sibilos que lhes trazem paz - CANTO PRIMEIRO - Lena Ferreira -

BRISAM-ME

Enquanto anoto as notas que a noite traz nem noto o tempo que me olha tão atento pudera, ando distraindo-me com o vento com os rodopios que seu movimento faz Nas luas que vão descuidadas, vou assaz buscando um novo ritmo pro pensamento na contradança, pauso a lira em contratempo com passos de tocar na noite o que me apraz E quando chega a vez das notas madrugadas - aquelas que contêm estrelas já suadas pelas distâncias percorridas céu afora – Me pego olhando a quem me olha tão tranquilo seus olhos deitam nos meus olhos sem sigilos suas notas brisam-me com beijos que demoram BRISAM-ME - Lena Ferreira -

DOS VERDES EXCESSOS

No campo extremo dos verdes excessos nascem palavras que espocam como tiros entre rubros e alvos delírios, sangue; jaz o que era paz, ensaio - mas, um ato, peço: calçada com os silêncios mais maduros peito aberto, desarmada e sem escudos penso erguer uma das solidárias tendas no esquerdo canto do campado em quase flor com bandeiras verde-oliva tremulando mastros que verguem ao sabor do tempo - mesmo que não entenda o suor do vento, mesmo que não entenda seu deslocamento,   intento plantar azuis no chão das exceções: o campo necessita de cuidados, não de canhões - DOS VERDES EXCESSOS - Lena Ferreira -

PRIMAVERANDO NO INVERNO

Venho de plantar entre as estações sementes várias de flores que nem conheço - sem aguardar pelo florir que não tem preço, levo no peito a melhor das sensações - Vou solitário, carregado às emoções visto sozinho em passo, triste assim pareço imaginado que nem saiba o endereço de onde chegar; sentido, metas, direções - mas, do plantio, não me canso: ciclo eterno verões e outonos, primaverando no inverno - Entre o cuidado e o acaso sementeiro, as flores nascem, perfumando o caminho e o detalhe de ser visto assim, sozinho passa distante do pensar plantar primeiro PRIMAVERANDO NO INVERNO - Lena Ferreira -

MUDAS

Flor que se demora respirando culpas em pétalas íntimas de orvalho e luz espremida entre silêncios e esperas anseia pelos dedos lisos do cultivador que, alheio às necessidades férteis, nega a rega e ainda transplanta mudas de camélias,  de begônias e de lírios para o terreno lasso vizinho da calma - há de se plantar uma muda que seja de sândalo, baunilha, de verbena ou trigo em torno dessa rosa úmida de estrelas para que, florescendo no tempo preciso, suavizem o vento das ervas daninhas - MUDAS - Lena Ferreira - In Florbelescos

TEU CORPO

Teu corpo respiro como vida fenda, fissura, carne e fibra detalhes ínfimos e vários sudário íntimo, necessário que me descobre enquanto cobre as partes úmidas e mínimas - sementeprecisosemente - planto-te no ventre do afeto as piro teu corpo como vida teu corpo respiro como a vida TEU CORPO - Lena Ferreira -