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LADAINHA

  E das cismas cíclicas em revisitas anunciadas, plantadas no extenso quintal à minha frente, as sementes espalhadas pelo vento invadiram corredores, quarto e sala. E cresceram como heras pelas falas, pelas paredes e subindo além do teto, cobriram o sol, cobriram o céu e todo o seu azul de ensaio. Desde então, busco uma escada segura e firme e com altura necessária para arrancar essas folhas de teimosia viscosa... Antes que cubram o ferrolho das portas e janelas. Antes que impeçam a passagem da brisa suave. Antes que enraízem na garganta e travem definitivamente a voz. Antes que apertem os cômodos até o seu desmaio, asfixiando sândalos, verbenas, orquídeas e outras essências várias. Antes que... - nesse canteiro, onde faltas largas se alastram e me despoesiam, ladainham lírios e lítio disputando atenções. - Oscilando entre o ofício e a cura, prescrevo possíveis soluções para esse estranho entrave: ou passo a foice nas mãos débeis que teimam regar inconstâncias ou  f...

FAROL

  Farol num mar que balança bem mais do que descansa, - posto que ondula entre a fúria  e o recuo, o eco, o sussurro e o vácuo do grito - deita os olhos, duas nascentes de calma, em cada um dos respingos de sal com os ouvidos atentos às fases, às frases, às crases e às oscilações anota cada nota da canção soprada aflita pelo hálito frio de maresia dispondo-as aos pés da razão, germina uma a uma em sensibilidade vasta afasta os grãos de areia - que atritam o percurso e o condena - asserena o verbo e a língua, deitando as notas na escrita - berço de larga entrega onde nascem versos caros, salinização sincera que o vento logo carrega - FAROL - Lena Ferreira – mar.15

IN LOCO

  I- Poros, campo de plantar arrepios em semeadura de táteis declarações florescem jardins de lírios aroma perfeito acordando estações de clamores inquietos II - Peito, cama de deitar afetos cobertos com puro linho de calma desabrocham verbenas aroma tranquilo adormecendo aflições de rumores incertos III- Olhos, lagos largos de poesia em mergulhos sem susto desafogam verbetes aroma diverso acalentando canções de amores despertos IN LOCO - Lena Ferreira - mar.15

NOVAMENTE

Uma palavra era o que me pedias e, tola, dei-te a frase completa talvez por pretensão de ser poeta talvez por pretender ser poesia Em linha curva era o que querias e, boba, entreguei-te numa reta o tiro e o alvo  ao escolher a seta que me acertava quando te atingia Uma palavra só, mas dei-te o verso que o intento atingiu seu reverso; interpretaste mal os meus motivos Agora, o que fazer com aquela frase? - silêncio, novamente, em nova fase segue-me o teu  olhar com duros crivos NOVAMENTE - Lena Ferreira - mar.15

AMANHÃS

Um sol preguiçoso levanta-se do berço de nuvens e caminha manso pela placidez azul num conformismo tácito gestando futuros galhos seminus não reclamam sede, fome ou frio um vento acanhado, alisa ventres e circula pelo interior acordando a copa, a seiva, o caule e a raíz a terra orvalhada responde ao que o vento insinua e o fato afeta o feto que sorri sementes: amanhãs, vestindo verdes vários, vagarosos ensaiam sua estreia marcada pra breve - nessa calma, bebem luz e dispensam aplausos - AMANHÃS - Lena Ferreira - mar.15

DOS QUERERES

Esses teus lábios de fala franca e macia escondem segredos em cada um dos cantos e esses teus olhos, dois poços de poesia revelam verdades da tua alma de encanto quisera teus passos ao menos por um dia seguir lado a lado sem medo e sem espanto levando nos braços um mar de calmaria capacitando a estrada em fonte de acalanto dispensaria ouvir os teus segredos, juro ainda que quisesses transpor esse muro o quê que ocultas é o que te revela só quereria os teus lábios, os teus passos e esses teus olhos, coberta de abraços já os segredos, jazeriam numa cela DOS QUERERES - Lena Ferreira - mar.15

SEARA

Além da porteira, um caminho extenso, debaixo de uma chuva que não para meus olhos correm enquanto eu, só, penso: - Por que meu coração ainda dispara quando lembro da poética seara? - um campo em flores de versos; imenso, desabrochado em rimas ricas, raras - Incauto jardineiro, me convenço de que essa chuva que cai sem dar trégua encharcando o caminho em mais de léguas são lágrimas do meu peito em estio Além da porteira, meu olhar se deita e planta um verso que, calmo, se ajeita; espero, em breve, ver  florir o plantio SEARA - Lena Ferreira - mar.15