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PRESENTE

Então, é quase natal. Não só por isso, mas também por isso, agradeço. E agradeço por tudo aquilo que já passou. Pelo que voltou sem ao menos ter ido. Por tudo que se foi sem volta. Pelas reviravoltas. E pelo que está. O que virá, é novo e, é claro, desconheço. Não sou vidente. Mesmo assim, agradeço antecipadamente porque acredito que tudo o que nos acontece tem lá os seus motivos. No mínimo, no mínimo, é sinal de que ainda estamos vivos, certo? Então, de peito aberto, agradeço pelas presenças e ausências. Das palavras, dos silêncios, dos ouvidos, dos gestos, das poesias e dos ventos. Agradeço pelos adiamentos, transferências e pelas antecipações. Pelas esperas produtivas. Pelas dúvidas certas. Pelas críticas construtivas. Pelos laços, os nós, o nós, as pétalas e os espinhos. Pelos caminhos em sorte ou revés. Agradeço aos pés que me fizeram chegar até aqui e me farão, espero, seguir num caminhar além. Agradeço ao peso da espada e a leveza da cruz. Agradeço especialmente pela consci...

VIVA

E aí você acorda, mas acordar é pouco. Dá uma olhadela pela janela e confere o tempo. Um sol tímido convida para beber o dia. Embora com preguiça, você aceita. Levanta da cama. Passa as mãos nos cabelos, toma meio gole de coragem e respira. Seus pés descalços levam o seu corpo, e o sono, até a beira da praia. Lá, você ensaia um passo a mais além das águas frias. Mas, o vento sopra e o sol resfria. Então, você recua temendo pela ousadia. Mas, repensa a precisão. Respira. Toma então um gole inteiro de coragem. Deita os pés nas ondas arredias. Frias, arrepiam até os pelos do pensamento, é claro. Mas, despertam o que ia dormente. Sente? E acordam os olhos do daqui pra frente. Vê? E abrem os ouvidos do ‘não quero mais’. Ouve? Então... Mergulha o sono e o seu corpo inteiro. Aquele mesmo, mas o mesmo outro. Aquele além daqueles olhos doutos. Aquele a quem você ‘deve' o amor primeiro. Vai, mergulha. E leva junto a sua alma. Aquela a quem você mantém cativa. Vai, 'me orgulha'... Vi...

EVOCARE

Os dias que evoco não listam o sol nem a chuva não chamam riso nem pranto não acertam retas nem curvas não servem servos ou santos não clamam brisa ou vento não pedem juízo ou loucura não falam à dor nem ao alento não dizem veneno ou cura Os dias que evoco não têm certezas nas folhas mas, sei que o seu epicentro é fruto das minhas escolhas somadas ao que carrego por dentro EVOCARE - Lena Ferreira -

SAMSARA

Pelas ruas espessas caminham as respostas apressadas, apreçadas e as compromissadas com o fio, o do meio entre elas, passeio sem receio ou espanto vez ou outra, me expresso sim, às vezes, tropeço entretanto, levanto e retorno ao passeio onde busco em samsara sem demora e sem pressa o que me interessa: a pergunta mais clara SAMSARA - Lena Ferreira -

NO ALTAR DO VENTO

O que tenho, e que me alivia, são os versos que, humanamente, teço esses que, de tempo em tempo, despretensiosamente, ofereço acesos, aos pés do altar do vento Enquanto queimam, observo: a qualquer noite ou qualquer dia, um de seus fragmentos, para a  minha alegria, há de se tornar verbo NO ALTAR DO VENTO - Lena Ferreira -

SIM, EU SEI

Sim, eu sei que a vida corre a galopes. E sei também que, às vezes, nos dá duros golpes. E por saber dessa dureza é que me encontro diante do mar que sempre, sempre está pronto a me receber, a qualquer hora ou sentimento. A me perceber, sem o peso da censura ou julgamento. A me envolver, seja na tristeza ou na alegria. E a me devolver, ao sabor da maresia, as notas da canção que tão bem me faz à alma. As mesmas que depois carrego bem no meio da palma da mão que tenta segurar a barra da saia onde uma onda ensaia aconchegar espuma e sais. Permito. Justa é a troca, é pelos ais das manhãs estendidas numa elevada quentura. Pelas tardes minguadas na espera da brandura. Pelas noites cumpridas em lua quando, em teima, insisto. Sim, eu sei que a vida margeia o imprevisto. Entre perdas e ganhos, sins e nãos, riscos e danos. Desobediente às regras e aos arquitetados planos, é a vida e é assim: corre a galopes e o tempo tempo, evapora, mas diante do mar, corpo, mente e alma se revigoram. ...

A4

Lança sobre mim esse olhar de outono e, com suas letras instintivas na dança do impulso sobre a linha da vida, da morte, do meio e na sina precipita-se em inventadas verdades abismando mágoas reativas ilusões macias e realidades duras, cítricas, sereno e curas paixões fugazes e fantasias deita amores, dores e euforias e, com dedos de um pulso abandono planta em minha virginal alvura as sementes sazonais e nativas que o vento traz, não sei de onde, revelando enquanto, pensa, esconde em verso avulso pelas entrelinhas, o ramo, o remo, o rumo e a mira que o impulso expulsa; livre ou rima A4 - Lena Ferreira -