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ao largo

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*** ao largo, esperas cansadas se empenham: nutrindo uma esperança esquálida balbuciam preces indizíveis por dias a mais mas, a reza que os céus preferem e a que ainda profiro é por dias amenos - Lena Ferreira - 

afasia

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*** do outono que se vai, o que nos deixa desponta em certos fundos de quintais nas nuvens de algum céu feito de queixa semeia intermitentes temporais difícil o respirar do ar que pesa e lesa as folhas que clamam por vento rejeitam o argumento que despreza e rezam por um novo pensamento mas, só rezar bem pouco adianta o que fazer com o grito na garganta contido por coragem ou covardia? talvez o inverno traga-nos respostas talvez, quem sabe, as folhas mais dispostas possam virar-se e findar a afasia  - Lena Ferreira -

só pra quem está dentro

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*** ninguém sabe o que acontece quando a porta fecha o que as paredes dizem, o que as cortinas sonham e mesmo que soubessem, nada disso importam a vida segue em curso, nascimento e morte sussurros, sopro, vento, solidão ao norte ao sul, a brisa é mansa e a porta, sempre aberta, recebe a chuva com sorrisos de esperança e, mesmo com o peso instável na balança, vislumbra a solução através de uma brecha então, o que acontece quando fecha a porta é coisa que só pra quem está dentro importa - Lena Ferreira - 

por sorte

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*** a noite deu um passo firme além da tarde com as mãos pesadas de promessas vespertinas em sua órbita, já transitam muitos rastros quase escondidos por estrelas repentinas só mais um passo, cuidadoso, sem alarde e o manto negro, como uma leve cortina, recobre o céu e nos descobre ainda frágeis nessa jornada entre o chão, o céu e os astros um passo a mais e a madrugada traz o sono entregue o corpo, a alma em suposto abandono talvez percorra os rastros, passos desse dia talvez vigie o corpo intacto em esperas talvez reclame as promessas de outras eras talvez, com sorte, acorde em nós, a poesia - Lena Ferreira - foto: Maria Célia R. Domingos

sem licença poética

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*** quando eu nasci nenhum dos anjos em suposto plantão (nem o de Carlos, ainda tão distraído, tampouco o de Adélia, sempre ocupadíssimo) dignou-se a me dar conselhos - era muda, mas não tive medo... -  dei foi graças por seres distantes pois se viessem, esquecidos espelhos, e me dessem o que nem lhes pedi começaria a falhar bem mais cedo - Lena Ferreira - 

ferreira

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... quisera ter nascido aço mas, minha mãe me fez ferreira: parto seco quase lasso quase rio em ribanceira forjo o verso pelas margens lambo as pautas derradeiras ardo chamas quase abismo quase seta sem ponteira alvo certo, não acerto: corto o vento que se agita airo o velho pensamento da brisa que regurgita verbos caros, dedicados a quem não ainda desperto quisera ter nascido aço mas, minha mãe me fez ferreira: forjo o verso e, num abraço, abrigo as almas inteiras - Lena Ferreira - 

nas asas de um passarinho

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*** meu amado põe palavras nas asas de um passarinho quando saem de sua boca voam, pousam e fazem um ninho neste peito que vos fala pobre peito, coisa pouca, com suas penas plangentes meu amado põe uns gestos numa estreita trajetória entre o colo, os seios e o cerne que, à loucura, ora empresto e, inflamando os lassos lábios, reedita a antiga história deste ser de tom clemente mas, logo voa... - ninguém sabe ou imagina o que traz quando retorna dos seus voos solitários em supostas desventuras - volta, pousa e eis que vinho: infiltro-me nas ranhuras das palavras que adivinho luz solícita em ternuras quando minha urgência agrava meu amado, sem palavras, sem traçar itinerários, participa a sua calma e me deixa sem palavras... - Lena Ferreira -