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em silêncio e falta

celebro-te em silêncio e falta que quase se ajustam na ciranda eterna dos desassossegos quase que em improviso quase que imperfeito quase que imprevisto quase um desapego e na festa, isenta de convidados, acendo um incenso sobre as pausas mais extremas ascendo uns versos no altar de alguns dilemas apago as luzes que me espionam segredos danço lua em fase incauta e, nesse enredo, celebro-te em silêncio e falta - amanheço pauta das canções sem medo - - Lena Ferreira - 

os quatro

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... e, porque nada me dizes, nada falo fico assim, assimilando o trato há tempos subentendido embora os olhos cheios - cheios, os quatro - dialogando longamente leve-nos as almas a passeios - Lena Ferreira - in Devaneios 

plantação

antes de ser verbo o verso é espada e escudo entre os dias, o nada e o tudo vasculhado pelo seu reverso antes de ser verbo o verso atravessa o mundo bebe o raso e fala ao fundo descompacta o todo imerso antes de ser verbo o verso é só fragmento é como pingo no pensamento em semente; pede plantação antes de ser verbo o verso é fruto que espera por aquela mão que prepondera ao colher, pura, a inspiração - Lena Ferreira -

instintivos

Sob o efeito de umas notas sussurradas sobre a pele numa improvável conquista quase, quase se ouvia aplausos antecipados, infinitos instantâneos, instintivos caros, efusivos dos pelos dispostos a abraçarem o palco da voz explorando outros acordes em detalhes um querer tanto de impensado aprendiz harmonizava os ventos fartos da cadência despreocupado com excelência, perfeição e sob o olhar de uma lua imprevista entre a calma e uma breve insensatez tocava notas e mais notas e mais notas e sustenidos nos lençóis de um branco giz até que, em êxtase, a música se fez entre aplausos - pausa - mais aplausos ...e o bis  - Lena Ferreira - in Devaneios

CONTO I

Recebeu o carregamento de tijolos com a mesma satisfação de criança que recebe um brinquedo novo e, sozinha, pôs-se escada acima os levando ao terraço.  Era sábado, dia de praia e shopping e ela ali, num sobe-e-desce exaustivo. Mas, nada tirava de Marinez o sorriso dos determinados, dos que acreditam que só o esforço aliado a certos sacrifícios fazem com que se alcance um objetivo firmemente traçado, embora simples. Um cômodo pequeno que, antes mesmo de nascer, ganhara o nome de Guardador de Ideias. Ali, acomodaria livros, projetos, tintas, telas, material reciclável, enfim, tudo o que inspirasse transpiração. E os tijolos subiam. Tarefa de um dia inteiro, finalizada com o corpo robusto lavado de suor, cansaço e orgulho. Daquele orgulho bobo, sabe? Que não se compara à pretensão de se pensar melhor do que aquelas que dependem de homens para esse tipo de serviço. Mas aquele orgulho de ter vencido uma etapa da única competição proposta e possível; superar-se. Apesar da força das c...

OUTRA MESMA

Interrogo as exclamações expressas os pontos reticentes   os parágrafos e os finais: de ontem o que fui sou a mesma? Intuo uma resposta: em construção, sou a mescla da de outrora com a que está no agora outra mesma amanhã a essência e o vivido que acrescenta me acompanham do mais me despeço me dispo ou tento amanhã embora perto é tão incerto é como vento amanhã nem mesmo as pedras serão as mesmas é só questão de tempo OUTRA MESMA - Lena Ferreira - 

PRESENTE

Então, é quase natal. Não só por isso, mas também por isso, agradeço. E agradeço por tudo aquilo que já passou. Pelo que voltou sem ao menos ter ido. Por tudo que se foi sem volta. Pelas reviravoltas. E pelo que está. O que virá, é novo e, é claro, desconheço. Não sou vidente. Mesmo assim, agradeço antecipadamente porque acredito que tudo o que nos acontece tem lá os seus motivos. No mínimo, no mínimo, é sinal de que ainda estamos vivos, certo? Então, de peito aberto, agradeço pelas presenças e ausências. Das palavras, dos silêncios, dos ouvidos, dos gestos, das poesias e dos ventos. Agradeço pelos adiamentos, transferências e pelas antecipações. Pelas esperas produtivas. Pelas dúvidas certas. Pelas críticas construtivas. Pelos laços, os nós, o nós, as pétalas e os espinhos. Pelos caminhos em sorte ou revés. Agradeço aos pés que me fizeram chegar até aqui e me farão, espero, seguir num caminhar além. Agradeço ao peso da espada e a leveza da cruz. Agradeço especialmente pela consci...