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instintivos

Sob o efeito de umas notas sussurradas sobre a pele numa improvável conquista quase, quase se ouvia aplausos antecipados, infinitos instantâneos, instintivos caros, efusivos dos pelos dispostos a abraçarem o palco da voz explorando outros acordes em detalhes um querer tanto de impensado aprendiz harmonizava os ventos fartos da cadência despreocupado com excelência, perfeição e sob o olhar de uma lua imprevista entre a calma e uma breve insensatez tocava notas e mais notas e mais notas e sustenidos nos lençóis de um branco giz até que, em êxtase, a música se fez entre aplausos - pausa - mais aplausos ...e o bis  - Lena Ferreira - in Devaneios

CONTO I

Recebeu o carregamento de tijolos com a mesma satisfação de criança que recebe um brinquedo novo e, sozinha, pôs-se escada acima os levando ao terraço.  Era sábado, dia de praia e shopping e ela ali, num sobe-e-desce exaustivo. Mas, nada tirava de Marinez o sorriso dos determinados, dos que acreditam que só o esforço aliado a certos sacrifícios fazem com que se alcance um objetivo firmemente traçado, embora simples. Um cômodo pequeno que, antes mesmo de nascer, ganhara o nome de Guardador de Ideias. Ali, acomodaria livros, projetos, tintas, telas, material reciclável, enfim, tudo o que inspirasse transpiração. E os tijolos subiam. Tarefa de um dia inteiro, finalizada com o corpo robusto lavado de suor, cansaço e orgulho. Daquele orgulho bobo, sabe? Que não se compara à pretensão de se pensar melhor do que aquelas que dependem de homens para esse tipo de serviço. Mas aquele orgulho de ter vencido uma etapa da única competição proposta e possível; superar-se. Apesar da força das c...

OUTRA MESMA

Interrogo as exclamações expressas os pontos reticentes   os parágrafos e os finais: de ontem o que fui sou a mesma? Intuo uma resposta: em construção, sou a mescla da de outrora com a que está no agora outra mesma amanhã a essência e o vivido que acrescenta me acompanham do mais me despeço me dispo ou tento amanhã embora perto é tão incerto é como vento amanhã nem mesmo as pedras serão as mesmas é só questão de tempo OUTRA MESMA - Lena Ferreira - 

PRESENTE

Então, é quase natal. Não só por isso, mas também por isso, agradeço. E agradeço por tudo aquilo que já passou. Pelo que voltou sem ao menos ter ido. Por tudo que se foi sem volta. Pelas reviravoltas. E pelo que está. O que virá, é novo e, é claro, desconheço. Não sou vidente. Mesmo assim, agradeço antecipadamente porque acredito que tudo o que nos acontece tem lá os seus motivos. No mínimo, no mínimo, é sinal de que ainda estamos vivos, certo? Então, de peito aberto, agradeço pelas presenças e ausências. Das palavras, dos silêncios, dos ouvidos, dos gestos, das poesias e dos ventos. Agradeço pelos adiamentos, transferências e pelas antecipações. Pelas esperas produtivas. Pelas dúvidas certas. Pelas críticas construtivas. Pelos laços, os nós, o nós, as pétalas e os espinhos. Pelos caminhos em sorte ou revés. Agradeço aos pés que me fizeram chegar até aqui e me farão, espero, seguir num caminhar além. Agradeço ao peso da espada e a leveza da cruz. Agradeço especialmente pela consci...

VIVA

E aí você acorda, mas acordar é pouco. Dá uma olhadela pela janela e confere o tempo. Um sol tímido convida para beber o dia. Embora com preguiça, você aceita. Levanta da cama. Passa as mãos nos cabelos, toma meio gole de coragem e respira. Seus pés descalços levam o seu corpo, e o sono, até a beira da praia. Lá, você ensaia um passo a mais além das águas frias. Mas, o vento sopra e o sol resfria. Então, você recua temendo pela ousadia. Mas, repensa a precisão. Respira. Toma então um gole inteiro de coragem. Deita os pés nas ondas arredias. Frias, arrepiam até os pelos do pensamento, é claro. Mas, despertam o que ia dormente. Sente? E acordam os olhos do daqui pra frente. Vê? E abrem os ouvidos do ‘não quero mais’. Ouve? Então... Mergulha o sono e o seu corpo inteiro. Aquele mesmo, mas o mesmo outro. Aquele além daqueles olhos doutos. Aquele a quem você ‘deve' o amor primeiro. Vai, mergulha. E leva junto a sua alma. Aquela a quem você mantém cativa. Vai, 'me orgulha'... Vi...

EVOCARE

Os dias que evoco não listam o sol nem a chuva não chamam riso nem pranto não acertam retas nem curvas não servem servos ou santos não clamam brisa ou vento não pedem juízo ou loucura não falam à dor nem ao alento não dizem veneno ou cura Os dias que evoco não têm certezas nas folhas mas, sei que o seu epicentro é fruto das minhas escolhas somadas ao que carrego por dentro EVOCARE - Lena Ferreira -

SAMSARA

Pelas ruas espessas caminham as respostas apressadas, apreçadas e as compromissadas com o fio, o do meio entre elas, passeio sem receio ou espanto vez ou outra, me expresso sim, às vezes, tropeço entretanto, levanto e retorno ao passeio onde busco em samsara sem demora e sem pressa o que me interessa: a pergunta mais clara SAMSARA - Lena Ferreira -