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Mostrando postagens de 2018

por sorte

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*** a noite deu um passo firme além da tarde com as mãos pesadas de promessas vespertinas em sua órbita, já transitam muitos rastros quase escondidos por estrelas repentinas só mais um passo, cuidadoso, sem alarde e o manto negro, como uma leve cortina, recobre o céu e nos descobre ainda frágeis nessa jornada entre o chão, o céu e os astros um passo a mais e a madrugada traz o sono entregue o corpo, a alma em suposto abandono talvez percorra os rastros, passos desse dia talvez vigie o corpo intacto em esperas talvez reclame as promessas de outras eras talvez, com sorte, acorde em nós, a poesia - Lena Ferreira - foto: Maria Célia R. Domingos

sem licença poética

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*** quando eu nasci nenhum dos anjos em suposto plantão (nem o de Carlos, ainda tão distraído, tampouco o de Adélia, sempre ocupadíssimo) dignou-se a me dar conselhos - era muda, mas não tive medo... -  dei foi graças por seres distantes pois se viessem, esquecidos espelhos, e me dessem o que nem lhes pedi começaria a falhar bem mais cedo - Lena Ferreira - 

ferreira

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... quisera ter nascido aço mas, minha mãe me fez ferreira: parto seco quase lasso quase rio em ribanceira forjo o verso pelas margens lambo as pautas derradeiras ardo chamas quase abismo quase seta sem ponteira alvo certo, não acerto: corto o vento que se agita airo o velho pensamento da brisa que regurgita verbos caros, dedicados a quem não ainda desperto quisera ter nascido aço mas, minha mãe me fez ferreira: forjo o verso e, num abraço, abrigo as almas inteiras - Lena Ferreira - 

nas asas de um passarinho

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*** meu amado põe palavras nas asas de um passarinho quando saem de sua boca voam, pousam e fazem um ninho neste peito que vos fala pobre peito, coisa pouca, com suas penas plangentes meu amado põe uns gestos numa estreita trajetória entre o colo, os seios e o cerne que, à loucura, ora empresto e, inflamando os lassos lábios, reedita a antiga história deste ser de tom clemente mas, logo voa... - ninguém sabe ou imagina o que traz quando retorna dos seus voos solitários em supostas desventuras - volta, pousa e eis que vinho: infiltro-me nas ranhuras das palavras que adivinho luz solícita em ternuras quando minha urgência agrava meu amado, sem palavras, sem traçar itinerários, participa a sua calma e me deixa sem palavras... - Lena Ferreira - 

além do poema

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... tomara, meu Deus, tomara que essa esperança que carrego no peito - de que o Amor e somente o Amor é capaz de mudar, do mundo, o jeito - nunca morra e, semente, floresça em gestos pequenos e palavras mais brandas beijando momentos amenos tomara, meu Deus, tomara que este meu querer seja mais que uma utopia e que, além do poema, o Amor seja o verbo do dia e que o verso que canto agora, revise a sentença pra absolver  a humanidade - preciso é que o Amor vença - - Lena Ferreira -

filtro

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*** Aprender a filtrar o que se ouve e o que se diz, penso, garante -nos um pouco mais de energia para saborear o dia, a semana, o mês, a vida! É um exercício contínuo, e árduo no começo, mas dominada a técnica, fica mais fácil o lidar e tem-me valido muito a pena. Entender que nem tudo o que nos enviam precisa ser recebido, poupa-nos de desgastes desnecessários. Se aceito, passa a ser meu. Então, abstraio. Há tanto de bom e de bem para ser visto, lido, lindo, vivo e vivido e que nos é servido minuto a minuto que se ocupo as mãos, e os olhos, com o que subtrai, não haverá meios de receber, e ver, o que acrescenta. Cada um dá ou deseja ao outro aquilo que tem. Eu te desejo o bem. - Lena Ferreira -

inconformadas

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*** o ar  da madrugada silenciosa e tranquila inspira-me a respirar outra visão a chuva cai fininha mas,  não me importo mais lembranças  inconformadas  vão ficando pra trás  - Lena Ferreira -

obrigada, ontens

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*** Obrigada, ontens. Sem vocês, eu não teria visto o que vi, vivido o que vivi, apreendido o que aprendi, me cansado, sorrido, chorado, sofrido, cantado, sentido - até mesmo o que não fez sentido - . Sem vocês, eu não poderia rever os meus passos, olhar o todo passado com outros olhos, perdoar os meus tropeços, cantar a canção deste hoje com a voz mais confiante, re-sentir sem ressentimentos depois de ter descansado o peso do dia anterior no travesseiro da calma, coberta com os lençóis da consciência tranquila e acordar nova(mente). Obrigada, ontens. Mas, adeus... - Lena Ferreira -

eu gosto de gente

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*** eu gosto de gente que ri e que chora que fala e que cala que erra e que acerta que abraça e que aperta que perde e que ganha que não faz barganha que agrada e que aguarda que vibra e que livra que cai e que levanta que não se ataranta que ajuda e que aceita outra diferença de gênero ou crença que vem e respeita e que se respeita e diz se doeu que 'bota pra fora' e não vai embora com mágoa no peito e, de algum jeito, tentar esclarecer eu gosto de gente: de gente que sente antes de entender - Lena Ferreira - 

cronos

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*** se voltasse como um vento sem aviso levantando o pó das coisas que dormem no sol da paisagem em cada canto conciso encontraria, em recibo, notas pelo só momento se voltasse como chuva de passagem encharcando o chão da espera das palavras, dos sorrisos, ao lado de um verbo preciso encontraria o juízo dos afetos, dos encantos, e o agradecimento se voltasse como uma brisa suspensa sobre as coisas insuspeitas com intuito de quem dera encontraria outro intento mas, não o arrependimento - Lena Ferreira -

prova

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*** bem que tentei me ajustar ao mundo ser um bezerro a mais nessa boiada tangida por quem diz saber de tudo - quem diz saber de tudo, sabe nada - bem que tentei acompanhar os passos dos pés que alicerçaram o paraíso mas, percebi pelos tropeços crassos: provar do inferno também é preciso bem que tentei provar, a todo custo, o meu motivo, mesmo tolo, justo quanto a vazão quando a mente engravida tentei provar, por muito tempo e tanto agora, experimento este entanto: se é pra provar, melhor provar é a vida! - Lena Ferreira -

enfrente e em frente

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*** diz-me das vezes que pensou em desistir jogar pro alto tudo o que lhe dá trabalho mas, acredite, a vida não possui atalhos enfrente e siga em frente com seu insistir tenha consigo a fé em Deus e em si mesmo trabalhe firme pois do céu só cai a chuva não se incomode se deslizar numa curva o que não pode é esquecer-se deste termo: ninguém fará por nós aquilo que nos cabe esta certeza é a que move o mundo inteiro então, quando pensar em desistir, primeiro pense em Deus que, sobre nós, detalhes sabe - Lena Ferreira - 

insolência

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** que Deus me livre do título 'santa' mesmo porque não importo a conduta: conter o grito que vai na garganta comer e não lambuzar-me com a fruta beber um gole só do que me encanta frear o passo que me leva à luta falar somente aquilo que acalanta que Deus me livre - sigo resoluta nessa postura entre o cai e o levanta trago distante o querer-me impoluta bem sei que o verso oscilante espanta mais se oscila entre o mel e a cicuta - mas, Deus me livre do pejo que canta; dispenso a santa que filha da puta - Lena Ferreira - 

tanto

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** abrigo um silêncio sacrossanto no canto que foi nosso, amado meu preservo, com carinho, todo encanto e há vezes que até sinto o cheiro teu à noite, antes de dormir, eu rezo como antes, só que um pouco diferente dizendo ao bom Deus o quanto prezo ter tido tua presença entre a gente silenciosa é a prece e vem da alma e enche de conforto o esquerdo canto renovando-me as forças, traz a calma pr'essa saudade que ainda sinto tanto - Lena Ferreira - 

câmbio

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dispenso títulos e honrarias dispenso rótulos e protocolos dispenso as refinadas iguarias e troco tudo por um bom colo dispenso a sorte num bom negócio dispenso o topo de uma colina dispenso a vida curtida em ócio eu quero é seguir nessa rotina: poucos amigos, livre de culpa seguindo em frente com meu destino que Deus bendiga e me esculpa a alma feito a de um menino - Lena Ferreira -

por sabê-la prisma

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* não questiono essa verdade nua a desfilar dual de encosta a encosta engravidando outro oceano exposto avolumando-o em densidade e norma que plataforma em cada sopro fácil do vento unânime em absurdo e pressa que arremessa os meus dois olhos longe como a punir-me por sabê-la frágil - como a punir-me por sabê-la prisma - mas, bem redimo-me do estado lua cultivo estrelas na passagem estreita que me madruga em pensamento-rio e desemboca em versos de exceção - não questiono essa verdade nua que sua, e úmida condensa a ação - - Lena Ferreira - 

sobre o voo

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* tudo era feito de uma calma regente desde os passos centrados, medidos até os olhos de brilho cingidos e aqueles lábios de riso contente que, sob o efeito, tudo fazia torrente desde os verbos pensados colhidos até os versos deitados, doídos e aquela doma do sopro indolente tudo era feito de uma calma em conquista dessas que não há quem proponha revista dessas que não há quem dispense vontade tudo era efeito de uma calma tão mansa dessas em que a alma inteirinha dança num viver, bem viver e viver de verdade - Lena Ferreira - 

de ausências calmas

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* é sob esse céu de ausências calmas que intensifico a minha insistência num verso prometido às gordas nuvens que correm como um corcel ao vento (...) que nasça prematuro ou no seu tempo, e, chuva, que fecunde incertas almas chovendo, então que as lave, fora e dentro e lava sendo, então que incendeie as tácitas palavras que, indispostas,  sob esse céu de ausências me devoram - Lena Ferreira -