segunda-feira, 5 de outubro de 2015

MEMÓRIA LÍQUIDA

E um rio corre manso e claro, à margem de uma casa amarela rodeada pela cerca de bambu
onde sóis se espreguiçam, onde tardes se balançam, onde luas se penduram juntamente com o futuro, estrelas e saguis.
Com os seus passos de silêncio apressado e com os seus olhos de deságue comprido, o rio observa o rolo de fumaça que sai pela chaminé de ferro e imagina: há fogo, há lenha, então, há lida.
E olhando para o quintal, flores de par em par, pássaros a cantar, roupas no varal, frutos no pomar, vento calmo, quase brisa, calmo, novamente imagina: há vida tranquila.
Concluída a inspeção, segue então o seu percurso. Deslizando macio, de leve se avoluma, levando, impregnada em sua líquida memória, a colheita do cenário desenhado, esboço a nuvem e giz.  
E então corre. Corre e vai contar ao mar tudo o que a visão em curso conhece. Mas, num deságue ligeiro, segue alheio ao que dentro da casa de fato acontece.



MEMÓRIA LÍQUIDA - Lena Ferreira -
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